Posts de Outubro, 2008

Vivo como nunca

11 - Outubro - 2008

Talvez o mais conhecido dentre os historiadores vivos, Eric Hobsbawm concedeu uma entrevista à revista de política internacional Sin Permiso sobre a atualidade da obra de Marx. Após 160 anos desde a publicação do Manifesto do Partido Comunista, o pensador alemão volta à tona em meios à crise financeira norte-americana.

O jornalista Marcelo Musto inicia a conversa com uma referência que explicita bem essa retomada. Segundo ele, em conversa com Hobsbawm, o empresário George Soros afirmou ter encontrado muitas coisas interessantes na obra de Marx. De fato, cada vez mais, membros do mercado financeiro se interessam pelo marxismo e sua análise do desenvolvimento do sistema capitalista.

“A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx”, afirma o autor da trilogia de livros sobre o século XIX, que completa: “Ao mesmo tempo, o proletariado, dividido e diminuído, deixou de ser crível como o agente histórico de transformação social”.

Hobsbawm afirma ainda que o retorno de Marx à esquerda só será possível quando as lutas anti-globalização cessarem. Segundo ele, não se trata de lutar contra este processo, visto que já está instalado e é irreversível, exceto ocorra um “colapso geral da sociedade humana”. O historiador assegura que o próprio Marx deu as boas-vindas à globalização. “O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo”, diz.

Quando questionado sobre a validade do pensamento marxista na atualidade, Eric Hobsbawm afirma: – Sua previsão de que o capitalismo seria trocado por um sistema administrado e planejado socialmente parece razoável, ainda que tenha certamente subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em um sistema pós-capitalista.

O historiador destaca ainda a importância dos Grundrisse. São escritos políticos de Marx publicados postumamente. Servem como uma prévia do que viriam a ser desenvolvido posteriormente no Capital. Um dos trechos de maior destaque trata das formações econômicas pré-capitalistas. Apesar de sua importância, o texto é pouco conhecido mesmo entre os pesquisadores.

Segundo Hobsbawm, provavelmente não há mais que poucos editores ou tradutores tiveram pleno conhecimento destes grandes e complexos textos. No entanto, o historiador não tem dúvidas: – Marx permanece como um guia soberbo para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

Confira a entrevista completa.

Cadernos de História

11 - Outubro - 2008

Criada em 2006, a Revista Eletrônica Cadernos de História constitui-se atualmente em um importante veículo de divulgação da pesquisa em Ciências Humanas no país. O periódico conta com um conselho consultivo composto por renomados pesquisadores do Brasil e do exterior.

Ao dar prosseguimento às suas edições temáticas, a revista dos discentes da Universidade Federal de Ouro Preto lançará em breve a sua edição ano 3, n. 2, com o tema Imprensa, Espaço Público e Cultura Política. Maiores informações em www.ichs.ufop.br/cadernosdehistoria.

História emoldurada por sorrisos

11 - Outubro - 2008

a manhã de 21 de agosto de 1911, um carpinteiro italiano saiu do Museu do Louvre com a Mona Lisa debaixo do braço. Caminhou, o passo rude, por várias ruas de Paris, enlaçado à famosa Gioconda de Leonardo, que ocultava sob o guarda-pó puído. Vincenzo Perugia concluía então aquele que é considerado um dos maiores roubos do século 20 – responsável pela lenda de que o quadro em exposição no Louvre, hoje, é falso.

Sabe-se muito pouco sobre os detalhes do crime. Mas, na versão do escritor argentino Martín Caparrós, tão logo ficou sozinho em casa com o quadro, Perugia viu-se bambo. Sem jeito diante da mulher do sorriso enigmático, até dedicou-lhe algumas canções ao bandolim. Teve insônia nos dois anos em que manteve a pintura debaixo da cama. Depois, tentou devolvê-la à Itália, de quem, ele achava, havia sido roubada por Napoleão Bonaparte.

Com detalhes como esse, malandros, Valfierno, primeiro livro de Caparrós lançado no Brasil, reconstrói o roubo de forma assumidamente ficcional. Ciente de suas próprias tramóias, o autor prefere o pitoresco ao policial; e desloca o papel de protagonista: este segue para o argentino marquês Eduardo de Valfierno – na verdade, Juan María Bonaglia – que teria sido o mentor do roubo. Personagem que é, acima de tudo, uma peça rara: na contramaré dos espertalhões clássicos, este dá o pulo do gato já quarentão. Após décadas como atendente de armarinho e contador de prostíbulo é que passa a dedicar-se à venda de quadros falsificados. Para isso, inventa toda uma vida no papel de marquês.

– Esta sempre me pareceu uma história fascinante. Não só o roubo em si, mas toda a trama que o rodeia, a história de Valfierno: como alguém inventa a si mesmo e como, depois, usa seu personagem para enganar um grupo de ricos pretensiosos – justifica Caparrós, que ganhou o Prêmio Planeta, uma das mais importantes láureas literárias espanholas, de 2004, com a obra.

Em 1917, Valfierno-Bonaglia procurou o jornalista americano Karl Decker (que, no livro, vira “Charles Becker”), para quem teria narrado a história, sob a promessa de que só a publicaria após a sua morte – o que aconteceu em 1931.

– Esse jornalista é o único que disse haver conhecido Valfierno. Mas como saber se a história contada pelo marquês, ou mesmo a narrada pelo jornalista, é verdade? – indaga o escritor.

E é de qualquer forma inútil tentar decifrar, em Valfierno, o novelo entre ficção e verdade que o compõe. Até porque esta é a brincadeira travessa de Caparrós: manter sua escritura, como os seus personagens, “sempre à beira” – expressão dele mesmo. E fazer da literatura o cerne um tanto obscuro, sádico, desse jogo: é o Bonaglia leitor-voraz que serve de matriz para o Valfierno inventado; e é o estilo peculiar de Caparrós, com a pontuação aos sobressaltos e a narrativa não-linear, de vozes misturadas, que ressaltam o livro como um próprio artifício de falsificação – a vida de Bonaglia, permanentemente reinventada, é aqui recriada mais uma vez. E por um escritor consciente de que vive, ele próprio, um exercício de cópias e roubos.

– Gosto muito da idéia de um falsário que sabe que fez algo genial, mas não pode contá-lo – explica. – Valfierno era, por isso, o contrário de um escritor, esse sujeito bastante tonto que nunca pára de contá-lo.

Mas um sujeito que vive a farsa, acima de tudo:

– Na verdade os falsificadores são os grandes escritores de ficção: os que crêem tanto em suas histórias que podem inclusive terminar na cadeia por elas.

Marquês inventado

O Valfierno criado pelo autor argentino é um personagem absolutamente sedutor: tão patife quanto inventivo. No livro há outros também encantadores, com destaque para Valérie, a demi-mondaine que mantém um caso com Valfierno e com Perugia – e, claro, com tantos outros. É bela, mas tem de manter-se de boca fechada, para que não lhe vejam os dentes estragados. Por isso, em determinado momento, tem seu sorriso comparado ao da Mona Lisa: aquele que tem motivos nada gloriosos para não se escancarar.

Mais uma prova de que Caparrós é um obcecado pelas minúcias. A maioria delas desemboca num quadro zombeteiro: das cortinas de veludo do cabaré Faux Chien ao tique de Perugia, que vez ou outra toca o testículo esquerdo para ganhar sorte.

– Deus está nos detalhes, dizia não me recordo quem – brinca, sabendo muito bem que a frase é do arquiteto Ludwig van der Rohe. – E um escritor quer, penosamente, ser Deus em sua pequena criação. Sem detalhes, sem minúcias, um texto é um catálogo menor, pura letra morta.

Caparrós tem algo de Perugia: os bigodes. Espessos e compridos, condizem com sua conhecida personalidade forte, inconfundível. São tão marcantes quanto sua voz, que o amigo (e também escritor argentino) Alan Pauls já descreveu, em um artigo, como “uma voz radiofônica: grave, como ensimesmada em sua própria notoriedade”.

Não à toa é radiofônica: ainda jovem, Caparrós estreou nas rádios com o hit Sueños de una noche de Belgrano, que estrelava ao lado de Jorge Dorio. Mas fez carreira mesmo no jornalismo impresso, onde já trabalhou nas editorias de esportes, cultura, gastronomia e polícia. Do Babel ao Cuisine & Vins, passando pelo Página/30 e El Porteño, o homem atua em todas as frentes.

Talvez os bigodes lhe sejam o segredo de Sansão: é veloz e versátil na pena, tendo mais de dez livros publicados, entre romances, ensaios e até uma obra (Boquita) sobre o time de futebol Boca Juniors, do qual é torcedor fanático. Perguntado se gosta de alguma equipe brasileira, exercita a marra argentina:

– Gosto de vários times: Santos, Palmeiras, Inter e muitos mais. Eles se empenham em nos deixar ganhar cada vez que os enfrentamos. É muito amável de sua parte, não?

Fora de moda

Além de jornalista, escritor e sócio do clube portenho, Caparrós é historiador. Escreveu, com Eduardo Anguita, um testemunho sobre a luta de grupos revolucionários dos anos 70 (La voluntad). Mas torce o nariz para quem confunda seus livros com “a epidemia dos romances historiográficos”.

– Me incomoda a moda das livrarias, que oferecem livrinhos mais ou menos errados sobre cada período ou lugar da História, desde as cavernas paleolíticas até agora – lamenta. – Cultivam a idéia, lamentável, de que alguém vai ler um livro divertido e, além disso, vai aprender algo, ou seja, que não vai perder tempo. Mas a literatura é, antes de mais nada, uma perda de tempo. A boa literatura vai contra a idéia de rentabilidade contemporânea, e é isso que eu mais gosto nela.

Contra a epidemia de livros de historiografia e a favor do desperdício agudo das horas, Caparrós criou obras que têm tido elogios ao redor do mundo. Entre elas, La historia, de 1999, cujo nome provocador adianta a que veio: o autor inventa uma civilização inteira, registrada em um manuscrito do século 16. Outro livro famoso é El interior, no qual Caparrós narra sua viagem de 30 mil quilômetros pelo interior da Argentina. No Brasil, além de Valfierno, sairá pela Companhia das Letras seu último romance, A quien corresponda.

Em todos eles, a marca em comum é o esmero rítmico, um tanto excêntrico. Caparrós é talvez um campeão mundial no uso de dois pontos – indício de que, acompanhando suas histórias, sua linguagem é também em falsete.

– Me importa muito o ritmo das frases. Se me guarda um segredo, te conto que muitas vezes escrevo contando as sílabas, como quem escreve em decassílabos ou alexandrinos.

Valfierno

Martín Caparrós.Tradução: Josely Vianna Baptista

Companhia das Letras

352 p., R$ 49

Museu no Caju conta 100 anos de história do lixo

9 - Outubro - 2008

Ironia do destino, a palavra gari nasceu do sobrenome de Aleixo Gary, um francês. Depois de visitar a Europa, cujo asseio envergonhava a sede do Império, Dom Pedro II resolveu trazer o especialista ao Rio com a tarefa de cuidar da limpeza urbana.

Em vez de jogar os dejetos pela janela, diretamente nas vias públicas, com a chegada de Gary o carioca passou a ter, a partir de 1876, coleta e despejo de lixo em local apropriado.

Contada em ilustrações, fotos e objetos da época, a curiosidade faz parte do repertório do guia e historiador Ângelo José Serafim, da Casa de Banho Dom João VI ou Museu da Limpeza Urbana, no Caju.

– As casas não tinham banheiro, as ruas eram sujas e a cidade cheirava mal. Foi com Dom Pedro II que surgiu a limpeza urbana – explicava o guia na última quarta a uma turma do Ensino Fundamental da rede municipal.

Inaugurado em 1996 pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), o museu funciona na casa onde Dom João VI tomou o primeiro banho da vida. Tombado em 1938 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o imóvel abriga peças do início do século 20, como as carruagens pioneiras no transporte de lixo e funcionários de limpeza, o primeiro modelo de carro-pipa e uniformes dos garis do então Departamento de Limpeza Urbana (DLU) vinculado à Prefeitura do Distrito Federal (PDF).

Do acervo também fazem parte fotos da época em que o bairro do Caju tinha o status de balneário, com praia e água limpas, e reproduções de retratos da família real em uma árvore genealógica completa.

– A importância do espaço não é só para cidade, mas para o bairro do Caju, que não tem outro ponto cultural a não ser o Museu Casa de Banho de Dom João VI – enfatiza a coordenadora, Vera Regina Paiva.

Referência cultural do Caju

Mais que preservar a história da cidade, o museu tem um papel social. Por meio da programação, moradores das comunidades vizinhas têm acesso a teatro, cultura e a Sala de Leitura, um espaço com 4.200 livros.

– Temos vasta informação para atender toda a comunidade. Além disso, as atividades chamam atenção para a importância de manter a cidade limpa – ressalta a coordenadora.

Como fazia a revista da PDF para ensinar à população hábitos que colaborassem para a limpeza urbana, no início do século passado, o museu expõe de forma didática, em painéis, informações sobre os problemas que o excesso de lixo acarreta. Por dia, a cidade produz 10 mil toneladas de dejetos, despejados nos aterros sanitários de Gericinó e Gramacho, com capacidade saturada.

– A maior preocupação da Comlurb é a construção do aterro de Paciência, para evitar um desastre ecológico na Baía de Guanabara – alertou o agente administrativo e palestrante da Comlurb, Gilberto Cesar de Alencar, ao fim da visita guiada de ontem.

Como 40% do total de lixo é retirado de logradouros públicos, os guias ensinam hábitos para evitar o consumo desnecessário de materiais como plástico e vidro, que levam 100 e 4 mil anos para se deteriorar.

– Em média, cada um de nós produz um quilo de lixo por dia. Quanto mais rico, mas lixo a pessoa produz. Para que embrulhar uma coisa que compramos para nós mesmos? – faz pensar.

Uma casinha pequenina

7 - Outubro - 2008

Depois de restauração, o Petit Trianon, refúgio da rainha Maria Antonieta em Versalhes, é reaberto ao público em toda a sua graça.

O assoalho está brilhando, os móveis receberam novo estofamento, há flores nos vasos e um elegante par de luvas repousa ao lado do toucador, como se sua dona tivesse saído um minutinho atrás. A última vez que ela esteve lá foi em 1789, mas o Petit Trianon, o pequeno e elegante palácio onde a rainha Maria Antonieta passava a maior parte do tempo, ganhou vida nova. Rememorando: mesmo preparada para os deveres reais, a jovem austríaca que aos 14 anos deixou seu país para o casamento dinástico com o herdeiro do trono francês sofria com a grandiosidade de Versalhes, o palácio oficial. Uma reação natural, considerando-se que em seus 67 000 metros quadrados e 2 000 cômodos, por onde circulavam 10 000 pessoas, entre nobres e serviçais, tudo era excessivo, exceto o conceito de privacidade. Na magnificência da corte francesa, até a troca de roupa da rainha era acompanhada por dezenas de pessoas organizadas de acordo com uma rígida hierarquia. Pior ainda, a corte inteira acompanhou os sete anos que o herdeiro, depois coroado Luís XVI, demorou para consumar o casamento. Sufocada pela etiqueta e pelo tédio conjugal, Maria Antonieta ganhou um espaço para respirar quando o marido lhe deu de presente sua própria casinha, o Petit Trianon. Uma jóia neoclássica de proporções elegantes e dimensões humanas, em comparação com Versalhes, a construção quadrada, com laterais de 23 metros, fica no extremo oposto em relação ao palácio principal dos enormes e suntuosos jardins palacianos. Ali, só entravam os convidados pessoais da rainha. Com poucos dourados – de novo, comparativamente – e paredes pintadas num cinza clarinho que ficou conhecido como o gris Trianon, virou o cenário onde Maria Antonieta fazia festas, jogava, exercia seus dotes artísticos e desfrutava os prazeres negados pelo marido relutante. A partir desta semana, toda a área interna do Petit Trianon, minuciosamente restaurada, poderá ser visitada pelo público.

Fotos Sipa Press e Francois Mori/AP
FOI ALI E JÁ VOLTA Os móveis, vendidos e dispersados depois da revolução de 1789, foram recuperados em cada detalhe, incluindo a temática floral, e agora ajudam a criar a sensação de que Maria Antonieta acabou de sair, deixando para trás um objeto aqui, as luvas ali


“O objetivo dessa restauração não era deixar o Petit Trianon com cara de museu, mas com ar de uma casa habitada. Gostaríamos de passar aos visitantes a sensação de que a rainha acabou de sair”, explicou a VEJA Pierre-André Lablaude, o arquiteto responsável pela restauração, uma obra de 5 milhões de euros. “Como ali só era autorizada a entrada dos convidados da rainha, os visitantes de hoje serão como visitas secretas.” Alguns ambientes, no andar térreo, estarão abertos ao público pela primeira vez, como os dormitórios dos criados, a sala de bilhar e a sala onde seriam instaladas as tables volantes – engenhoso sistema criado por Luís XV para que os pratos “surgissem” à mesa como num passe de mágica, mas que nunca foi finalizado. O 1º andar já havia sido restaurado anteriormente. Um dos ambientes mais conhecidos é a antecâmara com o retrato de Maria Antonieta segurando uma rosa, feito por Élisabeth Louise Vigée-Le Brun. Grupos acompanhados de guia poderão conhecer pela primeira vez o mezanino, onde ficavam as acomodações da camareira e da dama de companhia da rainha e uma pequena biblioteca, e o 2º andar, onde os quartos foram montados de modo a rememorar outros períodos e outras moradoras ilustres do Petit Trianon. “Depois da revolução, todos os móveis foram vendidos. Aos poucos, muitos foram recomprados ou doados e há vinte anos já vinham sendo reformados, à espera dessa restauração interna”, explica o arquiteto Lablaude.

O Petit Trianon foi originalmente construído pelo rei Luís XV para sua amante, Madame de Pompadour, que morreu antes que o palácio ficasse pronto. Amante morta, amante posta – e Madame du Barry se tornou, temporariamente, a dona do pedaço. Quando ganhou o palacete, com jardins e edificações adjacentes, Maria Antonieta imprimiu o próprio toque. Seu primeiro grande projeto foi a instalação de uma espécie de cortina de espelhos localizada em frente à janela do seu quarto. Assim, sentia a intimidade protegida. Como toda mulher que tem orçamento ilimitado e muitas idéias de decoração, foi mudando tudo. Entre os temas recorrentes em quadros, enfeites, tecidos e móveis, a natureza e muitas flores. Era lá que Maria Antonieta estava em 5 de outubro de 1789, quando recebeu a notícia de que a população enfurecida estava nos portões de Versalhes. No dia seguinte ela, o rei e os filhos foram levados para Paris, depois para a prisão e, por fim, para a guilhotina.


Fonte: Revista Veja

A democracia e o ‘fim da História’

4 - Outubro - 2008

O dito popular diz que “contra fatos não há argumentos”, mas o mais acertado seria admitir que apenas contra fatos é que existem argumentos, pois a interpretação da realidade depende sempre de onde se lha enxerga. Assim, um dos problemas caros aos historiadores é enxergar o passado para além dos acontecimentos, mas também a mentalidade existente nas consciências. Neste sentido, o que chamamos “modernidade” corresponde ao período em que existiram projetos universais, como o socialismo ou o nazi-fascismo, por exemplo. E o que chamamos “pós-modernidade” é exatamente este período em que parece haver uma ausência de projetos para a humanidade.

Para o estadunidense Francis Fukuyama, a queda do muro de Berlim representou o “fim da História”, pois a partir de então o antagonismo que polarizava o mundo entre socialistas e capitalistas estava suprimido pelo triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias. Tudo que restou, das requisições nacionalistas ao fundamentalismo islâmico, não serve de estandarte e o “american way of life”, isto é, o estilo de vida americano parece ser a única bandeira de um mundo colonizado econômica e culturalmente pela super-potência do Tio Sam.

Mesmo diante do inesperado – os ataques ao Pentágono e às Torres Gêmeas – e das transformações mundiais ocorridas em virtude do terrorismo, o projeto dos Estados Unidos ainda é o hegemônico: vida, liberdade e a procura da felicidade com as bênçãos da democracia. Por isso, as guerras contra o Afeganistão e o Iraque nunca estiveram sob a mira de uma crítica feroz que fizesse de Bush um derrotado, mas a atual crise econômica que pode acabar com a farra do consumo talvez o coloque, historicamente, no panteão dos demônios.

É muito cedo para dar qualquer veredicto. Assim como é muito cedo, ou quem sabe tarde demais, para assinalar o “fim da História”. Tudo pode acontecer, embora seja muitíssimo provável que não estejamos aqui para ver. A democracia é o nosso presente e, sem dúvida, ela é o pior dos regimes políticos enquanto não houver um melhor. O Estado democrático, sendo teoricamente o que representa a vontade da maioria, é o único que garante a liberdade. E a luta só é possível sem o arbítrio da excepcionalidade, isto é, sem o poder soberano dos regimes ditatoriais.

O problema, então, não é tanto pelo quê ou por quem lutamos, mas se efetivamente lutamos. Lutamos? O descaso e muitas vezes a alienação parecem ser uma forma de luta, como se o silêncio sem mordaça fosse o próprio protesto. Preocupados em vender o almoço para pagar a janta ou em aproveitar a última promoção do shopping, dependendo da posição econômica que ocupamos, não nos envolvemos em qualquer manifestação que exceda às ambições de nosso individualismo. E assim compramos o sonho americano de uma felicidade fabricada para ser consumida instantaneamente: o único projeto é o da construção da casa própria, mesmo que ela se avizinhe a barracos.

Nada tenho contra as ambições e as conquistas individuais. O que me espanta é o “pensamento único” que consente a desigualdade social e a corrupção sem tomar qualquer parte. O que me espanta é a ignorância que não reflete sobre as mudanças necessárias. O que me espanta é a desesperança que se acostuma com a estagnação. E, por fim, o que me causa um misto de asco com pavor é essa vontade de tirar proveito das situações, de justificar os meios pelos fins, de pensar que se a “farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Tudo isso leva ao poder a banda podre da política com suas listas de favores devidos aos financiadores da campanha.

Se a mentalidade da pós-modernidade nos retirou qualquer herança de projeto universal, isto não significa que não haja projetos que possam ser partilhados coletivamente. E é aí que os Estados Unidos demonstram a sua autocrítica, pois lá a sociedade civil é altamente organizada. São as associações de moradores, de donas de casa, de grupos de auto-ajuda, de mulheres, de homossexuais, as organizações não-governamentais, os grêmios, as cooperativas, os sindicatos e os movimentos sociais. A formação desses grupos de interesse é o que garante o peso das reivindicações na arena pública.

No Brasil, esse processo de organização da sociedade civil começou a deslanchar nas últimas décadas, mas a “coisa pública” é ainda vista como “coisa de ninguém”. A impunidade e a corrupção são certamente as razões da apatia, assim como a mentalidade individualista deste tempo histórico voltado para o consumo e para o utilitarismo. Votar é importantíssimo, mas não é a única virtude da democracia. É preciso observar como estamos sendo representados. É preciso reivindicar quando essa representação falha. E é preciso apresentar propostas também. Se apenas contra fatos é que existem argumentos, é preciso que argumentemos diante da realidade para que o “fim da História”, se um dia o houver, não seja o triunfo do apaziguamento pela conformidade, pela resignação ou pela indiferença.

Fonte: O Globo

Mulheres da ciência

3 - Outubro - 2008

No início dos anos 40 observou-se, no Brasil, uma crescente escolarização em nível superior, em muito proporcionada por políticas educacionais implantadas a partir de 1930, que encaminharam contingentes expressivos de mulheres às instituições científicas. A conquista feminina na época acarretou a inserção profissional de diversas mulheres no mundo acadêmico e científico, e a análise desse processo pode fornecer uma nova perspectiva sobre a institucionalização e profissionalização da atividade científica no Brasil.

Para os autores do artigo, a historiografia tem dificuldades para traçar um quadro em que, a partir da década de 40, as mulheres entraram contínua e decisivamente nos laboratórios de pesquisa
Para os autores do artigo, a historiografia tem dificuldades para traçar um quadro em que, a partir da década de 40, as mulheres entraram contínua e decisivamente nos laboratórios de pesquisa

É exatamente isso que pesquisadores do Instituto de Filosofia de Ciências Humanas da Universidade de Campinas e da Casa Oswaldo Cruz  da Fiocruz demonstraram em artigo publicado no último volume da revista História, Ciências e Saúde – Manguinhos. O estudo teve como base o exame de quatro revistas científicas publicadas no período entre 1939 e 1969, nas quais se detecta uma significativa presença de artigos femininos, bem como diferenças entre o padrão de publicação entre homens e mulheres: a Anais da Academia Brasileira de Ciência, a Revista Brasileira de Biologia, a Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e a Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais.
Confira o texto completo no site da Fiocruz.

Arquivos na rede

3 - Outubro - 2008

No início de setembro, o Google anunciou o plano de expandir seu já grandioso banco de dados. O maior buscador do mundo irá digitalizar milhares de páginas de jornais, disponibilizando-as para consulta através do serviço ‘Google News Archive’. O conteúdo poderá ser visto exatamente como foi publicado, com fotos, manchetes, textos e anúncios. Os primeiros parceiros da empresa são os Estados Unidos e o Canadá.

Há dois anos, o Google já trabalha com a indexação de notícias do New York Times e do Washington Post. No entanto, a partir de agora, outros jornais também poderão ser visualizados, como o Quebec Chronicle-Telegraph, o mais antigo da América do Norte.

Confira em: http://news.google.com/archivesearch

Concurso ANPOCS-FORD – Trabalhos Sobre a Constituição de 1988

2 - Outubro - 2008

Foi divulgado o edital para o Concurso ANPOCS – Fundação FORD de melhores trabalhos sobre a Constituição de 1988. Podem participar professores, pesquisadores e alunos de Centros e Programas afiliados ‘a ANPOCS. O concurso contempla todos os temas da vida brasileira que são afetados pela Constituição: poderes executivo, legislativo e judiciário, direitos humanos, sociais, politicos e civis, terras indigenas, quilombos, crianças, idosos, familia, gênero, sexualidade, direitos reprodutivos, diversidade cultural e etnica, discriminação racial, meio ambiente, acesso ‘a saude e ‘a educação etc. As inscrições vão ate’ 28/2/2009. Mais informações em http://www.anpocs.org.br/portal/images//editalconcursoffconst2008.pdf

Muro de Berlim em processo de restauração

1 - Outubro - 2008

Quando o primeiro pedaço do Muro de Berlim foi destruído, na noite de 9 de novembro de 1989, a comoção foi geral. Em um mês, os alemães – e curiosos do mundo inteiro – se precipitaram até o local para participar da demolição do “muro da vergonha”, a barreira que dividiu a Alemanha em duas por quase três décadas. Hoje, às vésperas do aniversário de 20 anos da queda do muro, as atenções estão voltadas para, quem diria, o restauro do que sobrou do grande símbolo da Guerra Fria.

Trecho remanescente do Muro de Berlim, decorado por artistas, que será restaurado para os 20 anos da queda do simbolo da Guerra Fria

Trecho remanescente do Muro de Berlim, decorado por artistas, que será restaurado para os 20 anos da queda do símbolo da Guerra Fria

Nada a ver com política, mas com patrimônio histórico. Do muro que muitos alemães passaram 28 anos querendo derrubar, só restou em pé um trecho de 1,3 km, decorado com trabalhos de cerca de 120 artistas, de mais de 20 países. E é esse trecho remanescente, chamado de Galeria do Leste, atual ponto turístico de Berlim, que está precisando de reparos. A erosão, além do vandalismo e pichações, estão colocando em risco esse último vestígio do que foi a barreira de concreto de 155 km de extensão (43 km no perímetro urbano de Berlim), erguida em 13 de agosto de 1961, na qual 136 pessoas, segundo pesquisas recentes, foram assassinadas tentando atravessá-la.

A idéia de manter um trecho do muro e transformá-lo em galeria foi lançada no começo de 1990. Em 2000, uma pequena parte das pinturas passou por processo de revitalização. Agora, os artistas que participaram da elaboração desse painel estão sendo chamados para restaurar os próprios trabalhos. A idéia é que tudo fique pronto para o aniversário de 20 anos do fim do muro, em 9 de novembro de 2009.

Fonte: História Viva