O dito popular diz que “contra fatos não há argumentos”, mas o mais acertado seria admitir que apenas contra fatos é que existem argumentos, pois a interpretação da realidade depende sempre de onde se lha enxerga. Assim, um dos problemas caros aos historiadores é enxergar o passado para além dos acontecimentos, mas também a mentalidade existente nas consciências. Neste sentido, o que chamamos “modernidade” corresponde ao período em que existiram projetos universais, como o socialismo ou o nazi-fascismo, por exemplo. E o que chamamos “pós-modernidade” é exatamente este período em que parece haver uma ausência de projetos para a humanidade.
Para o estadunidense Francis Fukuyama, a queda do muro de Berlim representou o “fim da História”, pois a partir de então o antagonismo que polarizava o mundo entre socialistas e capitalistas estava suprimido pelo triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias. Tudo que restou, das requisições nacionalistas ao fundamentalismo islâmico, não serve de estandarte e o “american way of life”, isto é, o estilo de vida americano parece ser a única bandeira de um mundo colonizado econômica e culturalmente pela super-potência do Tio Sam.
Mesmo diante do inesperado – os ataques ao Pentágono e às Torres Gêmeas – e das transformações mundiais ocorridas em virtude do terrorismo, o projeto dos Estados Unidos ainda é o hegemônico: vida, liberdade e a procura da felicidade com as bênçãos da democracia. Por isso, as guerras contra o Afeganistão e o Iraque nunca estiveram sob a mira de uma crítica feroz que fizesse de Bush um derrotado, mas a atual crise econômica que pode acabar com a farra do consumo talvez o coloque, historicamente, no panteão dos demônios.
É muito cedo para dar qualquer veredicto. Assim como é muito cedo, ou quem sabe tarde demais, para assinalar o “fim da História”. Tudo pode acontecer, embora seja muitíssimo provável que não estejamos aqui para ver. A democracia é o nosso presente e, sem dúvida, ela é o pior dos regimes políticos enquanto não houver um melhor. O Estado democrático, sendo teoricamente o que representa a vontade da maioria, é o único que garante a liberdade. E a luta só é possível sem o arbítrio da excepcionalidade, isto é, sem o poder soberano dos regimes ditatoriais.
O problema, então, não é tanto pelo quê ou por quem lutamos, mas se efetivamente lutamos. Lutamos? O descaso e muitas vezes a alienação parecem ser uma forma de luta, como se o silêncio sem mordaça fosse o próprio protesto. Preocupados em vender o almoço para pagar a janta ou em aproveitar a última promoção do shopping, dependendo da posição econômica que ocupamos, não nos envolvemos em qualquer manifestação que exceda às ambições de nosso individualismo. E assim compramos o sonho americano de uma felicidade fabricada para ser consumida instantaneamente: o único projeto é o da construção da casa própria, mesmo que ela se avizinhe a barracos.
Nada tenho contra as ambições e as conquistas individuais. O que me espanta é o “pensamento único” que consente a desigualdade social e a corrupção sem tomar qualquer parte. O que me espanta é a ignorância que não reflete sobre as mudanças necessárias. O que me espanta é a desesperança que se acostuma com a estagnação. E, por fim, o que me causa um misto de asco com pavor é essa vontade de tirar proveito das situações, de justificar os meios pelos fins, de pensar que se a “farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Tudo isso leva ao poder a banda podre da política com suas listas de favores devidos aos financiadores da campanha.
Se a mentalidade da pós-modernidade nos retirou qualquer herança de projeto universal, isto não significa que não haja projetos que possam ser partilhados coletivamente. E é aí que os Estados Unidos demonstram a sua autocrítica, pois lá a sociedade civil é altamente organizada. São as associações de moradores, de donas de casa, de grupos de auto-ajuda, de mulheres, de homossexuais, as organizações não-governamentais, os grêmios, as cooperativas, os sindicatos e os movimentos sociais. A formação desses grupos de interesse é o que garante o peso das reivindicações na arena pública.
No Brasil, esse processo de organização da sociedade civil começou a deslanchar nas últimas décadas, mas a “coisa pública” é ainda vista como “coisa de ninguém”. A impunidade e a corrupção são certamente as razões da apatia, assim como a mentalidade individualista deste tempo histórico voltado para o consumo e para o utilitarismo. Votar é importantíssimo, mas não é a única virtude da democracia. É preciso observar como estamos sendo representados. É preciso reivindicar quando essa representação falha. E é preciso apresentar propostas também. Se apenas contra fatos é que existem argumentos, é preciso que argumentemos diante da realidade para que o “fim da História”, se um dia o houver, não seja o triunfo do apaziguamento pela conformidade, pela resignação ou pela indiferença.
Fonte: O Globo