Arquivo da categoria ‘Brasil Império’

Museu no Caju conta 100 anos de história do lixo

9 - Outubro - 2008

Ironia do destino, a palavra gari nasceu do sobrenome de Aleixo Gary, um francês. Depois de visitar a Europa, cujo asseio envergonhava a sede do Império, Dom Pedro II resolveu trazer o especialista ao Rio com a tarefa de cuidar da limpeza urbana.

Em vez de jogar os dejetos pela janela, diretamente nas vias públicas, com a chegada de Gary o carioca passou a ter, a partir de 1876, coleta e despejo de lixo em local apropriado.

Contada em ilustrações, fotos e objetos da época, a curiosidade faz parte do repertório do guia e historiador Ângelo José Serafim, da Casa de Banho Dom João VI ou Museu da Limpeza Urbana, no Caju.

– As casas não tinham banheiro, as ruas eram sujas e a cidade cheirava mal. Foi com Dom Pedro II que surgiu a limpeza urbana – explicava o guia na última quarta a uma turma do Ensino Fundamental da rede municipal.

Inaugurado em 1996 pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), o museu funciona na casa onde Dom João VI tomou o primeiro banho da vida. Tombado em 1938 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o imóvel abriga peças do início do século 20, como as carruagens pioneiras no transporte de lixo e funcionários de limpeza, o primeiro modelo de carro-pipa e uniformes dos garis do então Departamento de Limpeza Urbana (DLU) vinculado à Prefeitura do Distrito Federal (PDF).

Do acervo também fazem parte fotos da época em que o bairro do Caju tinha o status de balneário, com praia e água limpas, e reproduções de retratos da família real em uma árvore genealógica completa.

– A importância do espaço não é só para cidade, mas para o bairro do Caju, que não tem outro ponto cultural a não ser o Museu Casa de Banho de Dom João VI – enfatiza a coordenadora, Vera Regina Paiva.

Referência cultural do Caju

Mais que preservar a história da cidade, o museu tem um papel social. Por meio da programação, moradores das comunidades vizinhas têm acesso a teatro, cultura e a Sala de Leitura, um espaço com 4.200 livros.

– Temos vasta informação para atender toda a comunidade. Além disso, as atividades chamam atenção para a importância de manter a cidade limpa – ressalta a coordenadora.

Como fazia a revista da PDF para ensinar à população hábitos que colaborassem para a limpeza urbana, no início do século passado, o museu expõe de forma didática, em painéis, informações sobre os problemas que o excesso de lixo acarreta. Por dia, a cidade produz 10 mil toneladas de dejetos, despejados nos aterros sanitários de Gericinó e Gramacho, com capacidade saturada.

– A maior preocupação da Comlurb é a construção do aterro de Paciência, para evitar um desastre ecológico na Baía de Guanabara – alertou o agente administrativo e palestrante da Comlurb, Gilberto Cesar de Alencar, ao fim da visita guiada de ontem.

Como 40% do total de lixo é retirado de logradouros públicos, os guias ensinam hábitos para evitar o consumo desnecessário de materiais como plástico e vidro, que levam 100 e 4 mil anos para se deteriorar.

– Em média, cada um de nós produz um quilo de lixo por dia. Quanto mais rico, mas lixo a pessoa produz. Para que embrulhar uma coisa que compramos para nós mesmos? – faz pensar.

Três não é demais

29 - Setembro - 2008

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou no último dia 12 o tombamento de três patrimônios históricos no Piauí, tornando-o o primeiro estado a receber uma ação integrada do tipo. A medida afetará principalmente Parnaíba, cidade muito conhecida pela foz e dunas de seu rio principal. Teresina também será beneficiada, com o arrolamento da ponte João Luis Ferreira e da Floresta Fóssil.

Em Parnaíba, o tombamento inclui o centro histórico, seu entorno e um trecho do Rio Igaraçu, garantindo a proteção e revitalização de bens tanto do período colonial quanto dos séculos XIX e XX. Entre eles, está a Casa Inglesa. Sede de importantes atividades econômicas durante o ciclo da carnaúba, o prédio abriga importantes registros sobre as finanças do Piauí entre 1854 e os anos 1960.

A inclusão dos documentos na lista de patrimônios resguardados pelo Iphan é comemorada por Ingrid Clark, responsável pela Casa Inglesa. “Algumas pessoas acham que o tombamento faz os imóveis perderem valor. Ao contrário, ele agrega importância. É uma vitória para Parnaíba”, diz.

Segundo ela, a decisão veio em um momento importante, pois “ainda que a maioria dos patrimônios esteja em razoável estado de conservação, outros estão em situação alarmente, como o casarão Simplício Dias, que foi desapropriado”. Membro do Instituto Histórico de Parnaíba, Cosme Costa tem a mesma opinião. Ele afirma que, em 20 anos, cerca de 50 imóveis históricos foram derrubados para dar lugar a construções mais modernas e credita a destruição à ações de empresários.

A Floresta Fóssil é um sítio arqueológico único na América Latina, situado no perímetro urbano de Teresina. O tombamento irá preservar seu acervo geológico, que conta com plantas de aproximadamente 200 milhões de anos. Já a ponte metálica João Luis Ferreira é uma obra de engenharia ferroviária tida como um dos símbolos da capital do Piauí. Ela possui aparência semelhante à ponte de Blumenau, no Sul, mas com uma estrutura diferente.

O tombamento é um dispositivo que garante a preservação de locais importantes para a cultura do país. Todas as intervenções em áreas preservadas através deste instrumento devem ter a autorização do Iphan, sendo sua responsabilidade evitar a descaracterização do local. A partir deste reconhecimento, o poder público deve se empenhar em realizar a manutenção dos locais tombados por meio de ações diversas.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

Portal do século 18 é localizado em fazenda de banqueiro em SP

25 - Setembro - 2008
Reprodução/Página da ação civil Pública nº 062508082432-3, movida pelo Ministério Público de Minas Gerais

Reprodução/Página da ação civil Pública nº 062508082432-3, movida pelo Ministério Público de Minas Gerais

Graças a uma revista de decoração, Minas Gerais está perto de receber de volta um significativo fragmento de sua história. Nas páginas de uma antiga edição sobre casas de fazenda, integrantes da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais localizaram o portal entalhado em pedra-sabão do século 18, que pertencia à Igreja do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, de São João del-Rei, na Região Central do estado, criminosamente demolida em 1970. A prova impressa na revista motivou os promotores a ingressar com ação civil pública pedindo a reintegração da relíquia à cidade de origem e proibindo a retirada da portada da fazenda, localizada em Campinas, até o fim do processo. Se os proprietários venderem a peça antes do julgamento, estarão sujeitos a multa de R$ 100 mil.

“É uma importante vitória da luta contra o esquecimento e pela memória. Se a portada voltar para São João, estaremos reparando, 38 anos depois, um grave crime cometido contra a cidade”, comemora o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei (IHG) , José Antônio de Ávila Sacramento. A briga pela portada foi uma das motivações para a criação do IHG, meses antes da demolição. Na época, mesmo tombada por outro instituto, o do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a igreja foi destruída a mando do padre Jacinto Lovato, que comercializou toras de madeira, retábulo e ornatos de pedra do templo, para arrecadar fundos e construir novo prédio.

O maior tesouro da igreja – a fachada principal – foi vendida a um fazendeiro paulista por 5 mil cruzeiros, valor equivalente, hoje, a cerca de R$ 4,3 mil. A legenda da foto na revista em que a peça foi identificada enaltece a “face silenciosamente bela e mística das Minas Gerais” e destaca a “fé removida das igrejas ornadas por Aleijadinho para os redutos de São Martinho da Esperança”, em referência ao nome da fazenda do banqueiro e colecionador de artes paulista Mário Pimenta Camargos, que morreu em 1996. O texto não deixa dúvidas quando fala do “pórtico em pedra-sabão trazido de uma Igreja de São João del-Rei para enriquecer uma capelinha dos anos 50, perdida em meio à vegetação”. O Ministério Público ingressou com a ação depois que o serviço de inteligência visitou a fazenda e confirmou a localização da portada.

“A igreja foi demolida em uma época em que não havia preocupação em preservar o patrimônio. Ela não tinha o charme das igrejas do Centro, mais tradicionais”, explica o promotor e curador do Patrimônio Cultural de São João del-Rei, Antônio Pedro da Silva Melo, um dos autores da ação civil pública. Representantes do IHG cobravam do Ministério Público providências em relação à portada havia pelo menos cinco anos. Silva Melo afirma ter ficado surpreso ao encontrar, entre os documentos referentes à demolição da igreja, uma carta do então dirigente do Iphan, Afonso Arinos de Melo Franco, dizendo não haver, ali, qualquer elemento de cunho artístico que interessasse à preservação. “Por ser desprovida de obras de arte conhecidas, a tratavam como uma igreja velha, em vez de histórica”, afirma o promotor.

Autorizado pelo bispo da época a vender os bens da igreja para levantar fundos necessários à construção de um novo templo, o padre Jacinto Lovato não gostou dos protestos contra a demolição. Em carta enviada ao IHG, que estava à frente da briga, disse não aceitar “a intromissão de alheios à religião em assuntos de competência da mesma” e argumentou que as igrejas eram para “uso dos fiéis e não para serem contempladas como pura arte de construção”. A carta foi lida pelo pároco em voz alta, na missa de domingo. “Mesmo criticado, o padre nunca se sensibilizou. Ele gostava de ver a igreja construída no lugar da antiga. Achava que era a glória”, conta José Antônio Sacramento, para quem a volta da portada, “mesmo simples, virá carregada de muito simbolismo”, em caso de vitória na Justiça.

Moradores e amigos do Bairro Matozinhos já demonstraram a intenção de construir um memorial com a portada, bem próximo ao lugar onde ela ficava no passado. Outra hipótese seria levá-la para o Museu de Arte Sacra de São João del-Rei, instalado no antigo prédio da cadeia da cidade. Atualmente, o lugar abriga mais de 200 peças dos séculos 17, 18 e 19. “A volta da portada pode motivar outras pessoas que sabem onde estão peças do patrimônio histórico de suas cidades a tentar buscá-las. Mesmo difícil, o processo vale a pena e serve de exemplo às novas gerações”, afirma o presidente do IHG de São João del-Rei, José Antônio Sacramento. Denúncias do tipo podem ser feitas às promotorias de defesa do Patrimônio Cultural das cidades.

Fonte: Uai

Iepha avalia história de fazenda cafeeira

25 - Setembro - 2008
Imponente casarão de 365 janelas se destaca na divisa dos estados de Minas e Rio de Janeiro

Imponente casarão de 365 janelas se destaca na divisa dos estados de Minas e Rio de Janeiro

Uma das propriedades rurais mais imponentes de Minas – só de janelas, são 365, uma para cada dia do ano – começa a ser alvo, hoje, de pesquisa detalhada para futuro tombamento estadual. No início da tarde, uma equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG) chega a Santa Rita de Jacutinga, na Zona da Mata, a 355 quilômetros de Belo Horizonte, para dar início ao levantamento histórico e arquitetônico da Fazenda Santa Clara, construída entre 1760 e 1780, às margens do Rio Preto.

“É nossa primeira viagem ao local, que acredito ser realmente um espetáculo, perfeita representante da diversidade cultural mineira”, disse, ontem, a gerente do Patrimônio Material do Iepha, arquiteta Rosana Souza Marques, que comanda o grupo de pesquisa.

Grande produtora de café nos séculos 18 e 19, em cuja edificação trabalharam 2,8 mil negros, a Santa Clara está, atualmente, em poder de particulares, os quais pediram o tombamento às autoridades do patrimônio. Rosana explica que, ao lado das pesquisas documentais, será feito o registro da delimitação das terras e adotadas as diretrizes para proteção da área. “Ainda sabemos muito pouco sobre ela. Nesse contato, vamos avaliar, inclusive, o estado de conservação e, dependendo do caso, indicar medidas emergenciais de segurança”, disse.

Logo depois da visita, a equipe vai iniciar um relatório com todos os dados sobre a propriedade, que ainda não tem qualquer tipo de proteção por órgãos oficiais. “A idéia é que esse processo seja bem acelerado, de no máximo três meses”, adianta Rosana. Ao ser concluído, o material será apresentado ao Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep) para apreciação e possível tombamento provisório.

Falsas janelas

Quem chega às margens do Rio Preto, que divide parte dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, não deixa de ficar deslumbrado com o casarão de cor branca, senhor absoluto da região e da mata exuberante que o circunda. A paisagem serviu de cenário para a telenovela Terra Nostra, exibida entre 1999 e 2000, que era ambientada numa fazenda de café e retratava a imigração italiana no país. De acordo com o livro A cidade das cachoeiras, de Laudelina Marinho Nogueira, o solar conhecido como Mansão dos Fortes foi, originalmente, residência da família Fortes Bustamante. Em 1824, era ocupada pelo casal Francisco Fortes e Maria Tereza de Souza Fortes, baronesa de Monte Verde, que não teve filhos.

Hoje moradia, a fazenda guarda detalhes saborosos. A senzala não tinhas janelas, mas apenas desenhos que indicavam, com perfeição, sua presença na fachada. Essa era a forma encontrada pelos senhores para evitar que os cativos ficassem olhando para a casa grande. O artifício permitia também que os visitantes acreditassem que a senzala tinha, além das portas, as necessárias janelas para ventilação.

Fonte: UAI