Arquivo da categoria ‘Cultura Popular’

SP inaugura museu interativo dedicado à história do futebol

30 - Setembro - 2008

A cidade de São Paulo ganha nesta segunda-feira o Museu do Futebol, montado sob as arquibancadas da entrada principal do estádio do Pacaembu, na zona oeste da cidade. O museu é interativo e promete levar os visitantes a uma viagem inesquecível que conta a história do esporte mais popular do país. A abertura para o público acontece nesta terça, ás 10h, com ingressos a R$ 6,00. O Museu do Futebol funcionará apenas nos dias em que não houver jogos no estádio, para evitar qualquer tipo de confusão.

O local tem 6.900 m² e abrigará tanto a história do futebol brasileiro como a evolução do país em outros aspectos.

- O museu não se restringirá aos acontecimentos dentro das quatro linhas. Mostrará também o que aconteceu na cultura e na política do Brasil e do mundo – diz o secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, Hugo Barreto.

A instituição foi a principal parceira do projeto, que teve a iniciativa da prefeitura paulistana e do governo do estado.

Dentro do museu, que deve virar atração turística na cidade, haverá ainda o Auditório Armando Nogueira, com capacidade para 180 lugares, a sala de exposições temporárias Osmar Santos, o bar O Torcedor, uma loja com artigos esportivos e lembranças do local.

O museu será dividido em três setores principais. O torcedor começa a viagem pela área da emoção, passeia por momentos históricos e finaliza a trajetória no eixo da diversão. Em todos eles, há a fusão entre a modernidade e a nostalgia. Logo na entrada, os visitantes vão se deparar com imensos painéis com fotos ampliadas de objetos de torcedores que remetem ao futebol, como bonecos, flâmulas, chaveiros, botões de equipes e ingressos.

Outra parte do museu que chama a atenção é a sala dos Anjos Barrocos, com imagens de craques projetadas em telas, como se eles estivessem voando. No segundo andar, o torcedor revê a história do futebol desde o final do século XIX até a Copa da Alemanha, em 2006. Na última seção, todos poderão viver um dia de craque participando de jogos interativos.

Depois de conhecer a história do futebol brasileiro, o torcedor poderá mostrar suas habilidades e até medir a potência do seu chute. Nesse último setor estarão disponíveis diversos tipos de jogos e brincadeiras.

Em um deles, que se chama Chute a Gol, o visitante fará uma cobrança de pênalti. Sensores medirão a velocidade do chute. Além disso, o torcedor será fotografado e poderá ver sua imagem no site do museu. Os que não quiserem se arriscar com a bola nos pés, mas acham que entendem tudo de tática, poderão testar diversas formações nas mesas de pebolim instaladas no primeiro andar.

No mesmo local haverá uma pequena arquibancada onde os torcedores poderão ver um filme em terceira dimensão de seis minutos com Ronaldinho Gaúcho. A primeira imagem do jogador é apenas um esqueleto virtual que, aos poucos, vai se transformando no atacante.

Fonte: O Globo

O brega desconstruído

24 - Setembro - 2008

Se vivo, Euclides da Cunha concordaria: o cantor brega também é, antes de tudo, um forte. Sobreviventes da pobreza e do trabalho infantil, estes artistas conviveram com duras críticas a seus trabalhos mesmo depois de se tornarem celebridades. O enorme sucesso não evitou que fossem excluídos da historiografia da música brasileira por décadas. Ouvido por muitos e desprezado por poucos, o brega voltou às páginas dos jornais este mês por conta da morte de Waldick Soriano, cantor, compositor e ícone deste movimento.

Seus representantes são vários. Odair José, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo e Paulo Sérgio são apenas alguns dos nomes mais conhecidos da geração de cantores bregas que marcou época durante o regime militar. Ao contrário dos artistas da MPB, eles não tiveram formação universitária e não compunham prioritariamente canções de protesto. O Brasil dos cafonas era outro. Suas músicas falavam quase sempre sobre a rejeição, seja ela amorosa ou social. Por conta disso, foram taxados de alienados e ignorados pelas elites culturais.

No entanto, está em marcha uma retomada do brega. Patrícia Pillar lançou recentemente o documentário “Waldick, Sempre no meu coração” e bandas jovens, como Los Hermanos e Mombojó, já regravaram canções de artistas considerados cafonas. Sem dúvida, ao menos no meio acadêmico, um dos responsáveis por tal resgate é o historiador Paulo César de Araújo.

Autor da biografia censurada sobre Roberto Carlos, ele escreveu a mais completa análise sobre a música brega e o regime militar. Em entrevista para a Revista de História da Biblioteca Nacional, Paulo falou sobre a censura sofrida por estes artistas, a relação que manteve com eles e seus próximos projetos. Confira:

RHBN – Você já viu o documentário sobre Waldick?
Paulo – Não pude ver, pois estava nos Estados Unidos quando ele passou em um festival aqui do Rio. No ano passado, vi o DVD com o show dele, também dirigido pela Patrícia Pillar. Achei fantástico. Ela deu um tratamento espetacular às músicas do Waldick.

RHBN – Como surgiu seu interesse pela música brega?
Paulo – Faz parte da minha memória afetiva. Sou de Vitória da Conquista, interior da Bahia. No início dos 70, não tínhamos televisão, nem toca-discos. Escutava música através das rádios AM. Ouvia de Waldick Soriano a Chico Buarque, tudo misturado. Claro, os bregas tocavam muito mais que a MPB. Então, cresci em contato com esses artistas.

Quando ingressei na faculdade e me interessei pela história da música brasileira, constatei que aqueles cantores não estavam representados na historiografia. Eu me formei em História na UFF e Jornalismo na PUC. As pessoas falavam sobre bossa nova, tropicalismo e samba de raiz, mas nada sobre os bregas. É como se eles não tivessem existido.

RHBN – Você encontrou resistência dentro da academia?
Paulo – Não exatamente. Em um primeiro momento, não encontrei entusiasmo. Lembro que falava com alguns professores da UFF e não sentia grandes interesses. Tinha uma professora que até queria que me orientasse, mas ela falou: “Paulo, nessa época eu estava exilada na Europa. Não recebia discos de Waldick. Eu recebia do Caetano, do Milton. Não tenho nada para falar sobre isso”.

Há uma falta de intimidade com essa produção musical, mas eu consegui. Fiz alguns trabalhos e essas “resistências” foram sendo derrubadas à medida que ia apresentando os projetos. Depois, defendi a tese no mestrado na UNIRIO. Isso resultou nesse livro “Eu não sou cachorro não”.

RHBN – Como foi a pesquisa?
Paulo – Eu trabalhei muito com entrevistas para esse livro e ainda mais para o “Roberto Carlos em detalhes”. Também analisei jornais e revistas da época, além da discografia que rastreei em sebos. Isso não estava sendo re-editado, né? Foi uma pesquisa de garimpagem mesmo. Não só no Rio ou São Paulo. Por onde eu viajava, ia aos sebos reunindo esse material. Utilizei também entrevistas com produtores e os arquivos da censura, mostrando que ao contrário do que se pensava não foi só a MPB que foi proibida na época da ditadura. Fui no Arquivo Nacional e em Brasília atrás dessas fontes, que hoje já podem ser facilmente acessadas, mas na época também era uma garimpagem.

O depoimento dos cantores foi fundamental. Na MPB, há sempre entrevistas publicadas com regularidades. Com esses cantores, não. Muitos já estavam fora da mídia  e nunca tinham dado uma entrevista de caráter histórico. Geralmente, era sobre os discos e sucessos do momento. Nada que contextualizasse a obra deles a um momento da sociedade brasileira. Saber onde eles estavam quando o AI-5 foi decretado, por exemplo. Tanto que muitos falaram: – É a primeira vez que eu estou falando sobre esses assuntos.

RHBN – Você recorda de alguma entrevista em particular?
Paulo – Fiz todas pessoalmente. O Waldick, por exemplo, na época estava morando em Fortaleza. Então, tive que esperar ele vir até aqui. Um dia, ele foi para São Paulo e eu fui atrás. Ele estava em um hotel na Avenida São João.

Eu imaginava o Waldick, não é? Aquele cara meio cowboy, de óculos escuros e chapéu. E foi assim que eu o encontrei. Ele estava deitado na cama assistindo um bang-bang na televisão com a perna estirada. Era o próprio personagem vendo o filme.

Fiquei ali assistindo com ele e depois fomos conversar. Eles sempre foram receptivos. No início, imaginavam que seria mais uma daquelas entrevistas de sempre. Geralmente, o jornalista chega sem maior intimidade com aquele universo, o que é compreensível. Mas, quando o assunto começava, sentia que eles ficavam mais entusiasmados e surpresos com o conhecimento que tinha da obra deles. Então, eles falavam mais abertamente. Houve uma boa interação.

RHBN – Eles pareciam ressentidos com essa exclusão da memória oficial da música brasileira?
Paulo – Depende de cada um. Don e Ravel, por exemplo, tiveram aquela pecha de porta-vozes da ditadura militar. Eles pareciam mais inconformados. O Agnaldo Timóteo é mais radical: “Eu sei que canto bem pra caramba. Esses críticos não entendem nada”. Ia da arrogância ao ressentimento, dependendo da personalidade de cada um. Já o Waldick parecia indiferente. “Se tenho mais de 600 músicas gravadas, mais de 80 discos e eles não me reconhecem, então também não me merecem”. Era um gozador, ironizava os críticos também.

Mas acho que  isso não era tanto um problema para eles quanto seria para artistas que convivem nesse universo cultural. Acho até que meu livro revelou para eles algo que não tinham tanta consciência. Após a publicação alguns deles se tocaram: “Poxa, é mesmo. A gente estava fora da história”. O livro ajudou inclusive a revelar isso para eles.

RHBN – E qual o impacto do livro na carreira deles?
Paulo – Foi positivo. Principalmente com o Odair José, que foi uma das figuras centrais do livro. Pelo fato dele ter sido o mais censurado, talvez tenha sido o que teve maior repercussão. Houve um resgate do Odair José. Ele mesmo reconhece que houve uma retomada na sua carreira. A mesma coisa com o Waldick. Ele até reclamou quando fui lançar o livro em Salvador. Ele estava morando em Fortaleza, mas ficou chateado porque eu não o avisei. Disse: – Poxa, você não me convidou. Se você tivesse me avisado, eu iria.

Já com o Agnaldo Timóteo, eu fiquei em dúvida por causa do capítulo “Pederastas, maconheiros e prostitutas”. Nele, falo como a questão do sexo e amor foi tratada nesse repertório dos anos 60. Cito canções e falo de aspectos da vida pessoal do Agnaldo. E alguns amigos me alertavam dizendo que o Timóteo é brigão, estourado. Tinha essa dúvida de como seria a reação dele. A noite de autógrafo no Rio foi lá no Museu do Catete. Era uma noite chuvosa e, de repente, quando eu olho para a porta, entra aquele cara de capa escura com aquela voz de trovão: “Quem é Paulo César de Araújo?”. Eu pensei: “Pronto, é agora”. Aí chega o Agnaldo e fala: “Paulo César, vim aqui te dar um abraço”. Perguntei se ele não estava chateado comigo e ele respondeu: “Não, você nos tratou com muito respeito. Tudo que você disse é verdade. Quero que você dê um autógrafo para o Silvio Santos e outro para o Raul Gil. Vou entregar os livros pra eles”. Foi bacana. Ele percebeu que embora eu estivesse falando da vida dele, isso estava num contexto.

RHBN – E o Waldick? Como foi a trajetória dele?
Paulo – Dessa geração, ele é o mais velho. Começou primeiro e acabou se tornando o ícone maior da chamada música brega. Iniciou a carreira na virada de 59 pra 60 fazendo sucesso basicamente no norte e nordeste. Só a partir de 69, quando lança a música “Paixão de homem”, ele estoura no Brasil inteiro. A trajetória foi crescendo, não foi fácil, nem rápida. Ele foi engraxate, trabalhou no garimpo e como servente de pedreiro, mas ao mesmo tempo sonhava com a carreira artística.

Ele passa toda década de 70 no auge. Nesse período, seus discos alcançavam grandes vendagens e muitas execuções nos rádios. Já na virada de 70 para 80, o foco passa a ser o rock. As rádios FM ganham destaque e pela primeira vez assumem a dianteira na audiência. Após essa época, aquele sucesso vai rareando. Não é mais um álbum por ano. A vendagem é menor, toca menos e as gravadoras já não dão o mesmo espaço. A partir daí, eles vivem basicamente de shows. Até pouco antes de ficar doente, o Waldick estava fazendo show.

Eles tiveram mais sucesso de 69 até 79, por isso os chamo de geração do AI-5. Aliás, é assim com toda música popular. Isso é a regra. A exceção é um Roberto Carlos ou Caetano, que atravessam décadas com destaque e projeção. Você pega o pessoal da bossa nova, Carlos Lyra e Roberto Menescal, por exemplo. Eles tiveram sucesso na virada dos 50 até 64 e até hoje eles fazem shows sobre bossa nova. Cantam a produção daquele período. Com esses cantores não foi diferente.

RHBN – Como eles encararam a mudança de status social?
Paulo – Uma característica deles é que a grande maioria trabalhou durante a infância. Não é à toa que a obra deles vai ter esse caráter. Ao mesmo tempo que fala de uma rejeição amorosa, também trata de uma rejeição social. Então, há canções como: “Eu não sou cachorro não”, “Eu não sou sapato seu”, “Eu não sou tapete”. Ou como Evaldo Braga: “Eu não sou lixo”. Em uma leitura simples, é uma temática amorosa, sim. Mas dada as circunstâncias sociais, a origem deles, também dá para interpretar como uma rejeição social. Isso os ajudou no sucesso desses artistas. O público que vai ouvi-los também é formado  por porteiros, empregadas, garçons e imigrantes nordestinos. São pessoas freqüentemente humilhadas e ofendidas no cotidiano brasileiro. Então, vai haver essa identificação.

Acontece com eles mais ou menos o que acontece com jogadores de futebol, eu acho. Os que administraram melhor, conseguiram acumular patrimônio. Outros que não souberam aproveitar esse período de maior sucesso ficaram depois em condições mais difíceis. Mas o que dá dinheiro na música é prestígio, não é sucesso. Eles ganham dinheiro com shows. Se o artista tem prestígio, o show dele é caro, logo ele vai ganhar muito com música. Vendagem de discos dá (ou dava) dinheiro para a gravadora. Os bregas vendiam muito e recebiam a porcentagem que lhes cabiam, mas quem ganhava mais com isso era a gravadora. Já os artistas da MPB vendiam pouco em comparação. Mas o show do Caetano, do Chico, do Milton era e é caro. Então, esses artistas conseguiram ganhar muito mais dinheiro ao longo do tempo. A exceção é o Nelson Ned, que fez muito sucesso lá fora. Ele conseguiu um patrimônio maior por causa disso. É um dos cantores brasileiros de maior popularidade principalmente na América Latina e na África. Os que ficaram mais no Brasil não ganharam tanto quanto poderiam.

RHBN – Como foi a relação desses cantores com a ditadura militar?
Paulo – Especialmente com o AI-5, você tinha a repressão política e a repressão moral caminhando juntas. A MPB vai sofrer a repressão política, pois a temática de artistas como Vandré e Chico Buarque era a temática política. Eles faziam canções de protestos, músicas criticando o presidente Médici. Já os bregas vão tocar mais na questão moral, então vai sofrer outro tipo de repressão. Alguns deles fizeram canções de temática política, mas o foco maior e o que incomodou na época foi a questão moral. Eles falavam de temas considerados tabus, como pílula, prostituição, drogas e homossexualismo.

Por isso que o Odair José vai ser um dos mais censurados cantores da época. Suas músicas vão enfatizar, algo que era considerado subversivo. O Waldick Soriano sofreu menos, mas também sofreu. Ele não tinha uma obra tão voltada para o sexo, era mais romântico. Mas há um exemplo clássico e absurdo de proibição de músicas do Waldick que é a musica “Tortura de amor”. Na época, os militares não admitiam a existência da tortura no país, sequer que se falasse sobre isso. Então, essa referencia à tortura perturbou. Outra música dele chamada “Foge de ti” foi proibida porque os caras acharam a música ruim. Eles tinham um projeto de educar o povo, uma visão paternalista, bem típica dos regimes ditatoriais. Então, muitas vezes achavam que a música mal feita ia empobrecer o vocabulário.

Já Luiz Ayrão vai fazer canções de temática política. Ele está naquele grupo do “sambão-jóia” que teve seu ícone maior em Benito di Paula. Em 77, muito se falava dos treze anos da revolução. Ayrão fez uma música crítica chamada “Treze Anos”. Então, ficou muito óbvio e a música foi proibida. Aí ele mudou para “O divórcio”, mantendo a mesma letra e a música foi liberada.

Foi o caso do Odair José em “Pare de tomar a pílula”, de “A viagem”, que tratava de drogas. Ele abordava desses temas de forma consciente, queria confrontar mesmo. Ele ficou marcado desde o primeiro sucesso (“Vou tirar você desse lugar”) como um cantor de temas polêmicos. Então, a música atraiu mais essa repressão.

RHBN – Na tropicália, existe uma grande comunhão entre os artistas. Os cantores da música brega também produziam juntos?
Paulo – A tropicália é um grupo pequeno. No caso do brega, é uma geração que você tem desde cantores de bolero, baladistas até sambistas. É mais diverso. Era cada uma na sua carreira. Eles ocupavam o mesmo espaço, nos programas de TV e tal, mas mais pela contingência do que por um projeto em comum.

RHBN – Como era a relação dos outros cantores com os bregas?
Paulo – Os únicos artistas que tinham uma proximidade com o brega, eram exatamente os tropicalistas, pois isso era parte da própria essência do projeto de integração de misturar o cafona e o chique. Então, os artistas tropicalistas, especialmente Caetano, vão estar sempre atento à produção brega, tocando e gravando esse repertório na medida do possível. Em 73, há um famoso show de Odair José e Caetano. Você não vai ver Odair José cantando junto com um brega. Foi Caetano que quis. A Phonogram resolveu fazer uma apresentação onde cada um cantava com um companheiro. Gil cantou com Jorge Bem e Caetano escolheu Hermeto Pascoal, mas ele se recusou. Então, Caetano quis Odair José, que ficou até surpreendido. Já os cantores mais tradicionais não se relacionavam muito. Era cada macaco no seu galho.

RHBN – De onde surgiu a expressão música brega?
Paulo – Nos anos 70, a música popular mais romântica era chamada de cafona. No início dos anos 80 passa a se chamar de brega, que era uma expressão usada para designar o baixo meretrício, principalmente no interior da Bahia. Chegava um viajante e falava: “Onde é o brega aqui?”. Ele queria saber onde era a zona. Nesses locais tocava-se muito Waldick, Odair José e esses cantores mais populares. Aí no início dos anos 80 isso passa a ser adjetivo. A música do brega, passa a ser música brega. E o termo cafona vai perdendo força. Até hoje se chama de música brega. Acho até mais sonoro…

RHBN – E a música brega hoje?
Paulo – O brega está mais forte do que nunca. Assim como o samba, ele agoniza mas não morre. Ele se transforma. Estamos hoje no tecno-brega, que é dançante e mexe com o corpo. Nos anos 70 era algo mais romântico, você ouvia mais contemplativo. Essa geração sertaneja é chamada de “breganejo”. Zezé di Camargo e Luciano, Daniel ou Leandro e Leonardo estão dentro da produção identificada ao brega. O que eles vão fazer também não está associado ao moderno, nem ao tradicional. Os críticos não dizem que aquilo é musica caipira.

Saiu uma pesquisa no ano passado na Folha com os 10 artistas mais ouvidos no Brasil. E estavam lá: Calypso, Daniel, Zezé di Camargo e Amado Baptista. São cantores considerados bregas, que continuam sendo desqualificados pela crítica. Hoje eles têm uma presença maior. Há filmes, tocam na Globo, em novelas. Isso é o estilo brega, não aquela geração dos anos 70. A produção brega continua com força cada vez maior. Não dá mais para ignorar. Dá para desqualificar, pois eles não estão associados nem a tradição, nem a modernidade.

RHBN – Qual seu projeto atual?
Paulo – Fiz cerca de 200 entrevistas para esses dois livros. Foram quinze anos de pesquisa. Comecei em 90 e fui até em 2005. Usei apenas parte desse material. Então, ainda estou trabalhando com ele. Falei de Waldick Soriano a Tom Jobim. Conversei com todos pessoalmente e agora estou transcrevendo esse material. Só não consegui ainda dar um corte. Não sei se vou fazer uma síntese geral ou algo mais específico. Esse material dá pelo menos mais dois livros sobre música popular. Talvez eu vá contar os bastidores, ainda não sei. Mas com certeza vai ter mais um livro sobre música popular.

Revista de História da Biblioteca Nacional