Arquivo da categoria ‘História do Brasil’

Museu no Caju conta 100 anos de história do lixo

9 - Outubro - 2008

Ironia do destino, a palavra gari nasceu do sobrenome de Aleixo Gary, um francês. Depois de visitar a Europa, cujo asseio envergonhava a sede do Império, Dom Pedro II resolveu trazer o especialista ao Rio com a tarefa de cuidar da limpeza urbana.

Em vez de jogar os dejetos pela janela, diretamente nas vias públicas, com a chegada de Gary o carioca passou a ter, a partir de 1876, coleta e despejo de lixo em local apropriado.

Contada em ilustrações, fotos e objetos da época, a curiosidade faz parte do repertório do guia e historiador Ângelo José Serafim, da Casa de Banho Dom João VI ou Museu da Limpeza Urbana, no Caju.

– As casas não tinham banheiro, as ruas eram sujas e a cidade cheirava mal. Foi com Dom Pedro II que surgiu a limpeza urbana – explicava o guia na última quarta a uma turma do Ensino Fundamental da rede municipal.

Inaugurado em 1996 pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), o museu funciona na casa onde Dom João VI tomou o primeiro banho da vida. Tombado em 1938 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o imóvel abriga peças do início do século 20, como as carruagens pioneiras no transporte de lixo e funcionários de limpeza, o primeiro modelo de carro-pipa e uniformes dos garis do então Departamento de Limpeza Urbana (DLU) vinculado à Prefeitura do Distrito Federal (PDF).

Do acervo também fazem parte fotos da época em que o bairro do Caju tinha o status de balneário, com praia e água limpas, e reproduções de retratos da família real em uma árvore genealógica completa.

– A importância do espaço não é só para cidade, mas para o bairro do Caju, que não tem outro ponto cultural a não ser o Museu Casa de Banho de Dom João VI – enfatiza a coordenadora, Vera Regina Paiva.

Referência cultural do Caju

Mais que preservar a história da cidade, o museu tem um papel social. Por meio da programação, moradores das comunidades vizinhas têm acesso a teatro, cultura e a Sala de Leitura, um espaço com 4.200 livros.

– Temos vasta informação para atender toda a comunidade. Além disso, as atividades chamam atenção para a importância de manter a cidade limpa – ressalta a coordenadora.

Como fazia a revista da PDF para ensinar à população hábitos que colaborassem para a limpeza urbana, no início do século passado, o museu expõe de forma didática, em painéis, informações sobre os problemas que o excesso de lixo acarreta. Por dia, a cidade produz 10 mil toneladas de dejetos, despejados nos aterros sanitários de Gericinó e Gramacho, com capacidade saturada.

– A maior preocupação da Comlurb é a construção do aterro de Paciência, para evitar um desastre ecológico na Baía de Guanabara – alertou o agente administrativo e palestrante da Comlurb, Gilberto Cesar de Alencar, ao fim da visita guiada de ontem.

Como 40% do total de lixo é retirado de logradouros públicos, os guias ensinam hábitos para evitar o consumo desnecessário de materiais como plástico e vidro, que levam 100 e 4 mil anos para se deteriorar.

– Em média, cada um de nós produz um quilo de lixo por dia. Quanto mais rico, mas lixo a pessoa produz. Para que embrulhar uma coisa que compramos para nós mesmos? – faz pensar.

SP inaugura museu interativo dedicado à história do futebol

30 - Setembro - 2008

A cidade de São Paulo ganha nesta segunda-feira o Museu do Futebol, montado sob as arquibancadas da entrada principal do estádio do Pacaembu, na zona oeste da cidade. O museu é interativo e promete levar os visitantes a uma viagem inesquecível que conta a história do esporte mais popular do país. A abertura para o público acontece nesta terça, ás 10h, com ingressos a R$ 6,00. O Museu do Futebol funcionará apenas nos dias em que não houver jogos no estádio, para evitar qualquer tipo de confusão.

O local tem 6.900 m² e abrigará tanto a história do futebol brasileiro como a evolução do país em outros aspectos.

- O museu não se restringirá aos acontecimentos dentro das quatro linhas. Mostrará também o que aconteceu na cultura e na política do Brasil e do mundo – diz o secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, Hugo Barreto.

A instituição foi a principal parceira do projeto, que teve a iniciativa da prefeitura paulistana e do governo do estado.

Dentro do museu, que deve virar atração turística na cidade, haverá ainda o Auditório Armando Nogueira, com capacidade para 180 lugares, a sala de exposições temporárias Osmar Santos, o bar O Torcedor, uma loja com artigos esportivos e lembranças do local.

O museu será dividido em três setores principais. O torcedor começa a viagem pela área da emoção, passeia por momentos históricos e finaliza a trajetória no eixo da diversão. Em todos eles, há a fusão entre a modernidade e a nostalgia. Logo na entrada, os visitantes vão se deparar com imensos painéis com fotos ampliadas de objetos de torcedores que remetem ao futebol, como bonecos, flâmulas, chaveiros, botões de equipes e ingressos.

Outra parte do museu que chama a atenção é a sala dos Anjos Barrocos, com imagens de craques projetadas em telas, como se eles estivessem voando. No segundo andar, o torcedor revê a história do futebol desde o final do século XIX até a Copa da Alemanha, em 2006. Na última seção, todos poderão viver um dia de craque participando de jogos interativos.

Depois de conhecer a história do futebol brasileiro, o torcedor poderá mostrar suas habilidades e até medir a potência do seu chute. Nesse último setor estarão disponíveis diversos tipos de jogos e brincadeiras.

Em um deles, que se chama Chute a Gol, o visitante fará uma cobrança de pênalti. Sensores medirão a velocidade do chute. Além disso, o torcedor será fotografado e poderá ver sua imagem no site do museu. Os que não quiserem se arriscar com a bola nos pés, mas acham que entendem tudo de tática, poderão testar diversas formações nas mesas de pebolim instaladas no primeiro andar.

No mesmo local haverá uma pequena arquibancada onde os torcedores poderão ver um filme em terceira dimensão de seis minutos com Ronaldinho Gaúcho. A primeira imagem do jogador é apenas um esqueleto virtual que, aos poucos, vai se transformando no atacante.

Fonte: O Globo

Prédio histórico é reaberto no centro de São Paulo

30 - Setembro - 2008
Foto geral da agencia matriz da Nossa Caixa em fase final de preparação para inauguração e reabertura ao publico,a agencia de numero 0001 e fica na rua XV de Novembro,zona central. FOTO SERGIO CASTRO/ AE

Foto geral da agencia matriz da Nossa Caixa em fase final de preparação para inauguração e reabertura ao publico,a agencia de numero 0001 e fica na rua XV de Novembro,zona central. FOTO SERGIO CASTRO/ AE

Por oito meses, o bancário Dagoberto Duzze Domingos andou 200 metros a mais para chegar ao trabalho. A partir de hoje, ele e os outros 53 funcionários da agência matriz da Nossa Caixa – instalados desde 14 de janeiro numa filial vizinha – voltam ao histórico edifício sede, no número 111 da Rua 15 de Novembro. E os paulistanos poderão, além de conferir os detalhes da reforma de R$ 1,9 milhão que durou até a semana passada, observar o painel de 14,5 metros por 1,4 metro com fotos antigas do centro da cidade que o departamento de marketing do banco mandou instalar numa das paredes para celebrar a reabertura. “Lá é diferente. O espaço é bem mais amplo”, comenta Domingos.

Projetado pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo, Severo Villares e Companhia, o edifício começou a ser construído em 1941, para o Instituto Brasileiro do Café. Com a 2ª Guerra Mundial, o dinheiro minguou e as obras se arrastaram, com sucessivas interrupções, por uma década inteira. Só em 1951 os trabalhos recomeçam a todo vapor e o prédio ficou pronto.

O artista plástico italiano Gaetano Miani foi contratado pelo instituto e deixou quatro obras ali: A Conquista Tomada do Tosão de Ouro, um afresco de 2,67 por 8,30 metros; Bandeirantes, pintura em cerâmica azul e ouro de 4 por 4 metros; Riquezas do Brasil, pintura em esmalte sobre cobre composta por seis figuras, cada uma com 1 por 0,8 metro; e Brasil Dá Café ao Mundo, escultura em cerâmica revestida de cobre. Destas, apenas a última não fica em exposição na agência reaberta hoje.

Quando o banco comprou o prédio, em 1956, incorporou a seu acervo cultural as obras de Miani. O próprio artista plástico foi chamado, em 2004, para restaurar suas criações.

Tombado no ano passado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), o edifício passou nos últimos meses pela maior reforma de sua história. Degradados pelo tempo, os caixilhos tiveram a cor verde original recuperada e as ferragens em latão da porta de vidro principal polidas. O piso, de granito, e as paredes e pilares, de mármore, também foram restaurados, mantendo as tonalidades originais e os desenhos dos veios das pedras.

Os três pisos da agência – um total de 1,5 mil metros quadrados – passaram pelo processo. Todas as instalações hidráulicas e elétricas foram modernizadas. “Nossa preocupação era preservar a estrutura, de alto valor histórico, e, ao mesmo tempo, melhorar o conforto das pessoas que circulam pela agência. Além de aumentar o nível de iluminação, que era muito baixo”, explica o arquiteto Paulo Yokomizo, que concebeu o projeto há quase três anos. “O prédio estava muito defasado. Nunca havia passado por uma reforma completa assim.”

Fonte: Estadão

Três não é demais

29 - Setembro - 2008

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou no último dia 12 o tombamento de três patrimônios históricos no Piauí, tornando-o o primeiro estado a receber uma ação integrada do tipo. A medida afetará principalmente Parnaíba, cidade muito conhecida pela foz e dunas de seu rio principal. Teresina também será beneficiada, com o arrolamento da ponte João Luis Ferreira e da Floresta Fóssil.

Em Parnaíba, o tombamento inclui o centro histórico, seu entorno e um trecho do Rio Igaraçu, garantindo a proteção e revitalização de bens tanto do período colonial quanto dos séculos XIX e XX. Entre eles, está a Casa Inglesa. Sede de importantes atividades econômicas durante o ciclo da carnaúba, o prédio abriga importantes registros sobre as finanças do Piauí entre 1854 e os anos 1960.

A inclusão dos documentos na lista de patrimônios resguardados pelo Iphan é comemorada por Ingrid Clark, responsável pela Casa Inglesa. “Algumas pessoas acham que o tombamento faz os imóveis perderem valor. Ao contrário, ele agrega importância. É uma vitória para Parnaíba”, diz.

Segundo ela, a decisão veio em um momento importante, pois “ainda que a maioria dos patrimônios esteja em razoável estado de conservação, outros estão em situação alarmente, como o casarão Simplício Dias, que foi desapropriado”. Membro do Instituto Histórico de Parnaíba, Cosme Costa tem a mesma opinião. Ele afirma que, em 20 anos, cerca de 50 imóveis históricos foram derrubados para dar lugar a construções mais modernas e credita a destruição à ações de empresários.

A Floresta Fóssil é um sítio arqueológico único na América Latina, situado no perímetro urbano de Teresina. O tombamento irá preservar seu acervo geológico, que conta com plantas de aproximadamente 200 milhões de anos. Já a ponte metálica João Luis Ferreira é uma obra de engenharia ferroviária tida como um dos símbolos da capital do Piauí. Ela possui aparência semelhante à ponte de Blumenau, no Sul, mas com uma estrutura diferente.

O tombamento é um dispositivo que garante a preservação de locais importantes para a cultura do país. Todas as intervenções em áreas preservadas através deste instrumento devem ter a autorização do Iphan, sendo sua responsabilidade evitar a descaracterização do local. A partir deste reconhecimento, o poder público deve se empenhar em realizar a manutenção dos locais tombados por meio de ações diversas.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

Light e PUC juntas para resgatar e preservar a história do Rio

28 - Setembro - 2008

A Light e a Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC/RJ) celebraram no dia 26 de setembro (sexta-feira), na reitoria da universidade, protocolo de intenções para o desenvolvimento de ações de cunho acadêmico, cultural e turístico de resgate e preservação da história da cidade e do estado do Rio de Janeiro. O protocolo, de acordo com o diretor da Light Mozart Vitor Serra oficializa e ordena iniciativas que há algum tempo vêm sendo desenvolvidas pela empresa com o apoio da PUC.

Dois exemplos citados por Mozart foram o I Congresso de História das Cidades do Vale do Paraíba Fluminense, que aconteceu em junho passado, no município de Vassouras, e o Curso de História Urbana da Cidade do Rio de Janeiro, realizado em setembro de 2007, no Centro Cultural Light. Ambas as ações, patrocinadas pela Light, tiveram o apoio do Departamento de História da PUC.

Do protocolo assinado hoje já começaram a nascer dois novos projetos: a publicação de um livro sobre Machado de Assis e os bondes, e um seminário sobre a história urbana do Rio.”A Light não só participou intensamente da história do Rio de Janeiro e do Brasil como, em muitos aspectos e momentos, fez essa história. Temos, portanto, o dever de resgatá-la e preservá-la”, acrescenta Mozart.

“A Light tem muito a ver com a história e a memória da cidade. E a PUC gostaria muito de contribuir para a pesquisa e entendimento desta história. O bom deste acordo é que ele é tão amplo e possibilita tantas ações que não conseguimos nem ter a dimensão de todas as atividades que vamos desenvolver juntos”, avalia Margarida de Souza Neves, diretora do Departamento de História da PUC.

Fonte: Portal Fator Brasil

Governo pede desculpas às vítimas do regime militar

27 - Setembro - 2008

O Estado brasileiro pediu desculpas na sexta-feira a 13 vítimas do regime militar (1964-85), numa cerimônia pública que é parte de um esforço mais amplo para reparar os abusos cometidos no passado.

Ao contrário de outros países sul-americanos, como Argentina e Chile, o Brasil nunca levou ninguém a julgamento por homicídios ou torturas cometidos por agentes do regime, graças à Lei da Anistia, aprovada em 1979 pelo Congresso.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende o perdão em vez dos processos judiciais, mas vários integrantes do governo discordam.

A Caravana da Anistia, criada pelo Ministério da Justiça, percorre o país desde abril pedindo o perdão de vítimas e/ou de seus parentes, em nome do Estado, e oferecendo indenizações em vários casos.

Mas a cerimônia de sexta-feira, na presença de bispos e outras personalidades, foi o primeiro pedido de perdão com mais destaque público, num gesto simbólico para centenas de pessoas que foram mortas e milhares que foram torturadas durante a ditadura.

“O objetivo é paz, reconciliação e perdão”, disse Paulo Abrão Pires Jr., diretor da Caravana da Anistia.

O grupo já assumiu a culpa do Estado em 172 casos de violação de direitos humanos, e ainda vai avaliar outras 25 mil solicitações de vítimas.

Lula disse em agosto que seu governo não tentará rever ou anular a Lei de Anistia, conforme sugeriu uma declaração do ministro da Justiça, Tarso Genro, que provocou inquietação nos quartéis ao dizer que os torturadores deveriam ser julgados.

Alguns integrantes do governo querem que o Judiciário declare que a Lei da Anistia não abrange crimes como tortura, o que permitiria o julgamento de militares envolvidos na repressão a militantes de esquerda.

“Os juízes precisam decidir se pode cobrir a tortura, a violência sexual, a decapitação e dissecação”, disse o secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, a jornalistas presentes na audiência de sexta-feira.

“A Lei da Anistia não cobre crimes violentos, agressões ou terrorismo – ela não é de abrangência total”, disse Vannuchi, acrescentando que a Justiça deve se manifestar em breve.

O Minstério Público Federal de São Paulo apresentou em maio uma denúncia por tortura contra oficiais militares. A Organização dos Estados Americanos vai neste mês discutir a lei brasileira, e pode tomar uma decisão de cumprimento obrigatório, segundo o secretário.

ARQUIVOS SECRETOS

O governo Lula também abriu arquivos secretos revelando alguns abusos aos direitos humanos durante o período, e ainda pode investigar autoridades suspeitas de destruir provas.

“Há uma decisão do presidente de que ele não vai entrar para a história como o presidente que acobertou essa questão “, disse Vannuchi.

Diante de uma lacrimosa platéia na sexta-feira, a comissão relatou em detalhes alguns casos de abusos.

O ativista católico Ruy Frasão Soares, por exemplo, foi detido e torturado em 1964, e posteriormente viveu na clandestinidade. Foi preso novamente em 1974, e nunca mais foi visto. Sua viúva o representou na audiência de sexta-feira.

Há 170 pessoas que desapareceram durante o regime militar e ainda não tiveram seus corpos encontrados.

“A comissão lembra as gerações mais jovens dos fatos que mancharam nossa história com sangue”, disse o bispo Geraldo Lyrio Rocha. “Nunca devemos acobertar esse crime.”

Fonte:
Reuters

Portal do século 18 é localizado em fazenda de banqueiro em SP

25 - Setembro - 2008
Reprodução/Página da ação civil Pública nº 062508082432-3, movida pelo Ministério Público de Minas Gerais

Reprodução/Página da ação civil Pública nº 062508082432-3, movida pelo Ministério Público de Minas Gerais

Graças a uma revista de decoração, Minas Gerais está perto de receber de volta um significativo fragmento de sua história. Nas páginas de uma antiga edição sobre casas de fazenda, integrantes da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais localizaram o portal entalhado em pedra-sabão do século 18, que pertencia à Igreja do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, de São João del-Rei, na Região Central do estado, criminosamente demolida em 1970. A prova impressa na revista motivou os promotores a ingressar com ação civil pública pedindo a reintegração da relíquia à cidade de origem e proibindo a retirada da portada da fazenda, localizada em Campinas, até o fim do processo. Se os proprietários venderem a peça antes do julgamento, estarão sujeitos a multa de R$ 100 mil.

“É uma importante vitória da luta contra o esquecimento e pela memória. Se a portada voltar para São João, estaremos reparando, 38 anos depois, um grave crime cometido contra a cidade”, comemora o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei (IHG) , José Antônio de Ávila Sacramento. A briga pela portada foi uma das motivações para a criação do IHG, meses antes da demolição. Na época, mesmo tombada por outro instituto, o do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a igreja foi destruída a mando do padre Jacinto Lovato, que comercializou toras de madeira, retábulo e ornatos de pedra do templo, para arrecadar fundos e construir novo prédio.

O maior tesouro da igreja – a fachada principal – foi vendida a um fazendeiro paulista por 5 mil cruzeiros, valor equivalente, hoje, a cerca de R$ 4,3 mil. A legenda da foto na revista em que a peça foi identificada enaltece a “face silenciosamente bela e mística das Minas Gerais” e destaca a “fé removida das igrejas ornadas por Aleijadinho para os redutos de São Martinho da Esperança”, em referência ao nome da fazenda do banqueiro e colecionador de artes paulista Mário Pimenta Camargos, que morreu em 1996. O texto não deixa dúvidas quando fala do “pórtico em pedra-sabão trazido de uma Igreja de São João del-Rei para enriquecer uma capelinha dos anos 50, perdida em meio à vegetação”. O Ministério Público ingressou com a ação depois que o serviço de inteligência visitou a fazenda e confirmou a localização da portada.

“A igreja foi demolida em uma época em que não havia preocupação em preservar o patrimônio. Ela não tinha o charme das igrejas do Centro, mais tradicionais”, explica o promotor e curador do Patrimônio Cultural de São João del-Rei, Antônio Pedro da Silva Melo, um dos autores da ação civil pública. Representantes do IHG cobravam do Ministério Público providências em relação à portada havia pelo menos cinco anos. Silva Melo afirma ter ficado surpreso ao encontrar, entre os documentos referentes à demolição da igreja, uma carta do então dirigente do Iphan, Afonso Arinos de Melo Franco, dizendo não haver, ali, qualquer elemento de cunho artístico que interessasse à preservação. “Por ser desprovida de obras de arte conhecidas, a tratavam como uma igreja velha, em vez de histórica”, afirma o promotor.

Autorizado pelo bispo da época a vender os bens da igreja para levantar fundos necessários à construção de um novo templo, o padre Jacinto Lovato não gostou dos protestos contra a demolição. Em carta enviada ao IHG, que estava à frente da briga, disse não aceitar “a intromissão de alheios à religião em assuntos de competência da mesma” e argumentou que as igrejas eram para “uso dos fiéis e não para serem contempladas como pura arte de construção”. A carta foi lida pelo pároco em voz alta, na missa de domingo. “Mesmo criticado, o padre nunca se sensibilizou. Ele gostava de ver a igreja construída no lugar da antiga. Achava que era a glória”, conta José Antônio Sacramento, para quem a volta da portada, “mesmo simples, virá carregada de muito simbolismo”, em caso de vitória na Justiça.

Moradores e amigos do Bairro Matozinhos já demonstraram a intenção de construir um memorial com a portada, bem próximo ao lugar onde ela ficava no passado. Outra hipótese seria levá-la para o Museu de Arte Sacra de São João del-Rei, instalado no antigo prédio da cadeia da cidade. Atualmente, o lugar abriga mais de 200 peças dos séculos 17, 18 e 19. “A volta da portada pode motivar outras pessoas que sabem onde estão peças do patrimônio histórico de suas cidades a tentar buscá-las. Mesmo difícil, o processo vale a pena e serve de exemplo às novas gerações”, afirma o presidente do IHG de São João del-Rei, José Antônio Sacramento. Denúncias do tipo podem ser feitas às promotorias de defesa do Patrimônio Cultural das cidades.

Fonte: Uai

Iepha avalia história de fazenda cafeeira

25 - Setembro - 2008
Imponente casarão de 365 janelas se destaca na divisa dos estados de Minas e Rio de Janeiro

Imponente casarão de 365 janelas se destaca na divisa dos estados de Minas e Rio de Janeiro

Uma das propriedades rurais mais imponentes de Minas – só de janelas, são 365, uma para cada dia do ano – começa a ser alvo, hoje, de pesquisa detalhada para futuro tombamento estadual. No início da tarde, uma equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG) chega a Santa Rita de Jacutinga, na Zona da Mata, a 355 quilômetros de Belo Horizonte, para dar início ao levantamento histórico e arquitetônico da Fazenda Santa Clara, construída entre 1760 e 1780, às margens do Rio Preto.

“É nossa primeira viagem ao local, que acredito ser realmente um espetáculo, perfeita representante da diversidade cultural mineira”, disse, ontem, a gerente do Patrimônio Material do Iepha, arquiteta Rosana Souza Marques, que comanda o grupo de pesquisa.

Grande produtora de café nos séculos 18 e 19, em cuja edificação trabalharam 2,8 mil negros, a Santa Clara está, atualmente, em poder de particulares, os quais pediram o tombamento às autoridades do patrimônio. Rosana explica que, ao lado das pesquisas documentais, será feito o registro da delimitação das terras e adotadas as diretrizes para proteção da área. “Ainda sabemos muito pouco sobre ela. Nesse contato, vamos avaliar, inclusive, o estado de conservação e, dependendo do caso, indicar medidas emergenciais de segurança”, disse.

Logo depois da visita, a equipe vai iniciar um relatório com todos os dados sobre a propriedade, que ainda não tem qualquer tipo de proteção por órgãos oficiais. “A idéia é que esse processo seja bem acelerado, de no máximo três meses”, adianta Rosana. Ao ser concluído, o material será apresentado ao Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep) para apreciação e possível tombamento provisório.

Falsas janelas

Quem chega às margens do Rio Preto, que divide parte dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, não deixa de ficar deslumbrado com o casarão de cor branca, senhor absoluto da região e da mata exuberante que o circunda. A paisagem serviu de cenário para a telenovela Terra Nostra, exibida entre 1999 e 2000, que era ambientada numa fazenda de café e retratava a imigração italiana no país. De acordo com o livro A cidade das cachoeiras, de Laudelina Marinho Nogueira, o solar conhecido como Mansão dos Fortes foi, originalmente, residência da família Fortes Bustamante. Em 1824, era ocupada pelo casal Francisco Fortes e Maria Tereza de Souza Fortes, baronesa de Monte Verde, que não teve filhos.

Hoje moradia, a fazenda guarda detalhes saborosos. A senzala não tinhas janelas, mas apenas desenhos que indicavam, com perfeição, sua presença na fachada. Essa era a forma encontrada pelos senhores para evitar que os cativos ficassem olhando para a casa grande. O artifício permitia também que os visitantes acreditassem que a senzala tinha, além das portas, as necessárias janelas para ventilação.

Fonte: UAI

O brega desconstruído

24 - Setembro - 2008

Se vivo, Euclides da Cunha concordaria: o cantor brega também é, antes de tudo, um forte. Sobreviventes da pobreza e do trabalho infantil, estes artistas conviveram com duras críticas a seus trabalhos mesmo depois de se tornarem celebridades. O enorme sucesso não evitou que fossem excluídos da historiografia da música brasileira por décadas. Ouvido por muitos e desprezado por poucos, o brega voltou às páginas dos jornais este mês por conta da morte de Waldick Soriano, cantor, compositor e ícone deste movimento.

Seus representantes são vários. Odair José, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo e Paulo Sérgio são apenas alguns dos nomes mais conhecidos da geração de cantores bregas que marcou época durante o regime militar. Ao contrário dos artistas da MPB, eles não tiveram formação universitária e não compunham prioritariamente canções de protesto. O Brasil dos cafonas era outro. Suas músicas falavam quase sempre sobre a rejeição, seja ela amorosa ou social. Por conta disso, foram taxados de alienados e ignorados pelas elites culturais.

No entanto, está em marcha uma retomada do brega. Patrícia Pillar lançou recentemente o documentário “Waldick, Sempre no meu coração” e bandas jovens, como Los Hermanos e Mombojó, já regravaram canções de artistas considerados cafonas. Sem dúvida, ao menos no meio acadêmico, um dos responsáveis por tal resgate é o historiador Paulo César de Araújo.

Autor da biografia censurada sobre Roberto Carlos, ele escreveu a mais completa análise sobre a música brega e o regime militar. Em entrevista para a Revista de História da Biblioteca Nacional, Paulo falou sobre a censura sofrida por estes artistas, a relação que manteve com eles e seus próximos projetos. Confira:

RHBN – Você já viu o documentário sobre Waldick?
Paulo – Não pude ver, pois estava nos Estados Unidos quando ele passou em um festival aqui do Rio. No ano passado, vi o DVD com o show dele, também dirigido pela Patrícia Pillar. Achei fantástico. Ela deu um tratamento espetacular às músicas do Waldick.

RHBN – Como surgiu seu interesse pela música brega?
Paulo – Faz parte da minha memória afetiva. Sou de Vitória da Conquista, interior da Bahia. No início dos 70, não tínhamos televisão, nem toca-discos. Escutava música através das rádios AM. Ouvia de Waldick Soriano a Chico Buarque, tudo misturado. Claro, os bregas tocavam muito mais que a MPB. Então, cresci em contato com esses artistas.

Quando ingressei na faculdade e me interessei pela história da música brasileira, constatei que aqueles cantores não estavam representados na historiografia. Eu me formei em História na UFF e Jornalismo na PUC. As pessoas falavam sobre bossa nova, tropicalismo e samba de raiz, mas nada sobre os bregas. É como se eles não tivessem existido.

RHBN – Você encontrou resistência dentro da academia?
Paulo – Não exatamente. Em um primeiro momento, não encontrei entusiasmo. Lembro que falava com alguns professores da UFF e não sentia grandes interesses. Tinha uma professora que até queria que me orientasse, mas ela falou: “Paulo, nessa época eu estava exilada na Europa. Não recebia discos de Waldick. Eu recebia do Caetano, do Milton. Não tenho nada para falar sobre isso”.

Há uma falta de intimidade com essa produção musical, mas eu consegui. Fiz alguns trabalhos e essas “resistências” foram sendo derrubadas à medida que ia apresentando os projetos. Depois, defendi a tese no mestrado na UNIRIO. Isso resultou nesse livro “Eu não sou cachorro não”.

RHBN – Como foi a pesquisa?
Paulo – Eu trabalhei muito com entrevistas para esse livro e ainda mais para o “Roberto Carlos em detalhes”. Também analisei jornais e revistas da época, além da discografia que rastreei em sebos. Isso não estava sendo re-editado, né? Foi uma pesquisa de garimpagem mesmo. Não só no Rio ou São Paulo. Por onde eu viajava, ia aos sebos reunindo esse material. Utilizei também entrevistas com produtores e os arquivos da censura, mostrando que ao contrário do que se pensava não foi só a MPB que foi proibida na época da ditadura. Fui no Arquivo Nacional e em Brasília atrás dessas fontes, que hoje já podem ser facilmente acessadas, mas na época também era uma garimpagem.

O depoimento dos cantores foi fundamental. Na MPB, há sempre entrevistas publicadas com regularidades. Com esses cantores, não. Muitos já estavam fora da mídia  e nunca tinham dado uma entrevista de caráter histórico. Geralmente, era sobre os discos e sucessos do momento. Nada que contextualizasse a obra deles a um momento da sociedade brasileira. Saber onde eles estavam quando o AI-5 foi decretado, por exemplo. Tanto que muitos falaram: – É a primeira vez que eu estou falando sobre esses assuntos.

RHBN – Você recorda de alguma entrevista em particular?
Paulo – Fiz todas pessoalmente. O Waldick, por exemplo, na época estava morando em Fortaleza. Então, tive que esperar ele vir até aqui. Um dia, ele foi para São Paulo e eu fui atrás. Ele estava em um hotel na Avenida São João.

Eu imaginava o Waldick, não é? Aquele cara meio cowboy, de óculos escuros e chapéu. E foi assim que eu o encontrei. Ele estava deitado na cama assistindo um bang-bang na televisão com a perna estirada. Era o próprio personagem vendo o filme.

Fiquei ali assistindo com ele e depois fomos conversar. Eles sempre foram receptivos. No início, imaginavam que seria mais uma daquelas entrevistas de sempre. Geralmente, o jornalista chega sem maior intimidade com aquele universo, o que é compreensível. Mas, quando o assunto começava, sentia que eles ficavam mais entusiasmados e surpresos com o conhecimento que tinha da obra deles. Então, eles falavam mais abertamente. Houve uma boa interação.

RHBN – Eles pareciam ressentidos com essa exclusão da memória oficial da música brasileira?
Paulo – Depende de cada um. Don e Ravel, por exemplo, tiveram aquela pecha de porta-vozes da ditadura militar. Eles pareciam mais inconformados. O Agnaldo Timóteo é mais radical: “Eu sei que canto bem pra caramba. Esses críticos não entendem nada”. Ia da arrogância ao ressentimento, dependendo da personalidade de cada um. Já o Waldick parecia indiferente. “Se tenho mais de 600 músicas gravadas, mais de 80 discos e eles não me reconhecem, então também não me merecem”. Era um gozador, ironizava os críticos também.

Mas acho que  isso não era tanto um problema para eles quanto seria para artistas que convivem nesse universo cultural. Acho até que meu livro revelou para eles algo que não tinham tanta consciência. Após a publicação alguns deles se tocaram: “Poxa, é mesmo. A gente estava fora da história”. O livro ajudou inclusive a revelar isso para eles.

RHBN – E qual o impacto do livro na carreira deles?
Paulo – Foi positivo. Principalmente com o Odair José, que foi uma das figuras centrais do livro. Pelo fato dele ter sido o mais censurado, talvez tenha sido o que teve maior repercussão. Houve um resgate do Odair José. Ele mesmo reconhece que houve uma retomada na sua carreira. A mesma coisa com o Waldick. Ele até reclamou quando fui lançar o livro em Salvador. Ele estava morando em Fortaleza, mas ficou chateado porque eu não o avisei. Disse: – Poxa, você não me convidou. Se você tivesse me avisado, eu iria.

Já com o Agnaldo Timóteo, eu fiquei em dúvida por causa do capítulo “Pederastas, maconheiros e prostitutas”. Nele, falo como a questão do sexo e amor foi tratada nesse repertório dos anos 60. Cito canções e falo de aspectos da vida pessoal do Agnaldo. E alguns amigos me alertavam dizendo que o Timóteo é brigão, estourado. Tinha essa dúvida de como seria a reação dele. A noite de autógrafo no Rio foi lá no Museu do Catete. Era uma noite chuvosa e, de repente, quando eu olho para a porta, entra aquele cara de capa escura com aquela voz de trovão: “Quem é Paulo César de Araújo?”. Eu pensei: “Pronto, é agora”. Aí chega o Agnaldo e fala: “Paulo César, vim aqui te dar um abraço”. Perguntei se ele não estava chateado comigo e ele respondeu: “Não, você nos tratou com muito respeito. Tudo que você disse é verdade. Quero que você dê um autógrafo para o Silvio Santos e outro para o Raul Gil. Vou entregar os livros pra eles”. Foi bacana. Ele percebeu que embora eu estivesse falando da vida dele, isso estava num contexto.

RHBN – E o Waldick? Como foi a trajetória dele?
Paulo – Dessa geração, ele é o mais velho. Começou primeiro e acabou se tornando o ícone maior da chamada música brega. Iniciou a carreira na virada de 59 pra 60 fazendo sucesso basicamente no norte e nordeste. Só a partir de 69, quando lança a música “Paixão de homem”, ele estoura no Brasil inteiro. A trajetória foi crescendo, não foi fácil, nem rápida. Ele foi engraxate, trabalhou no garimpo e como servente de pedreiro, mas ao mesmo tempo sonhava com a carreira artística.

Ele passa toda década de 70 no auge. Nesse período, seus discos alcançavam grandes vendagens e muitas execuções nos rádios. Já na virada de 70 para 80, o foco passa a ser o rock. As rádios FM ganham destaque e pela primeira vez assumem a dianteira na audiência. Após essa época, aquele sucesso vai rareando. Não é mais um álbum por ano. A vendagem é menor, toca menos e as gravadoras já não dão o mesmo espaço. A partir daí, eles vivem basicamente de shows. Até pouco antes de ficar doente, o Waldick estava fazendo show.

Eles tiveram mais sucesso de 69 até 79, por isso os chamo de geração do AI-5. Aliás, é assim com toda música popular. Isso é a regra. A exceção é um Roberto Carlos ou Caetano, que atravessam décadas com destaque e projeção. Você pega o pessoal da bossa nova, Carlos Lyra e Roberto Menescal, por exemplo. Eles tiveram sucesso na virada dos 50 até 64 e até hoje eles fazem shows sobre bossa nova. Cantam a produção daquele período. Com esses cantores não foi diferente.

RHBN – Como eles encararam a mudança de status social?
Paulo – Uma característica deles é que a grande maioria trabalhou durante a infância. Não é à toa que a obra deles vai ter esse caráter. Ao mesmo tempo que fala de uma rejeição amorosa, também trata de uma rejeição social. Então, há canções como: “Eu não sou cachorro não”, “Eu não sou sapato seu”, “Eu não sou tapete”. Ou como Evaldo Braga: “Eu não sou lixo”. Em uma leitura simples, é uma temática amorosa, sim. Mas dada as circunstâncias sociais, a origem deles, também dá para interpretar como uma rejeição social. Isso os ajudou no sucesso desses artistas. O público que vai ouvi-los também é formado  por porteiros, empregadas, garçons e imigrantes nordestinos. São pessoas freqüentemente humilhadas e ofendidas no cotidiano brasileiro. Então, vai haver essa identificação.

Acontece com eles mais ou menos o que acontece com jogadores de futebol, eu acho. Os que administraram melhor, conseguiram acumular patrimônio. Outros que não souberam aproveitar esse período de maior sucesso ficaram depois em condições mais difíceis. Mas o que dá dinheiro na música é prestígio, não é sucesso. Eles ganham dinheiro com shows. Se o artista tem prestígio, o show dele é caro, logo ele vai ganhar muito com música. Vendagem de discos dá (ou dava) dinheiro para a gravadora. Os bregas vendiam muito e recebiam a porcentagem que lhes cabiam, mas quem ganhava mais com isso era a gravadora. Já os artistas da MPB vendiam pouco em comparação. Mas o show do Caetano, do Chico, do Milton era e é caro. Então, esses artistas conseguiram ganhar muito mais dinheiro ao longo do tempo. A exceção é o Nelson Ned, que fez muito sucesso lá fora. Ele conseguiu um patrimônio maior por causa disso. É um dos cantores brasileiros de maior popularidade principalmente na América Latina e na África. Os que ficaram mais no Brasil não ganharam tanto quanto poderiam.

RHBN – Como foi a relação desses cantores com a ditadura militar?
Paulo – Especialmente com o AI-5, você tinha a repressão política e a repressão moral caminhando juntas. A MPB vai sofrer a repressão política, pois a temática de artistas como Vandré e Chico Buarque era a temática política. Eles faziam canções de protestos, músicas criticando o presidente Médici. Já os bregas vão tocar mais na questão moral, então vai sofrer outro tipo de repressão. Alguns deles fizeram canções de temática política, mas o foco maior e o que incomodou na época foi a questão moral. Eles falavam de temas considerados tabus, como pílula, prostituição, drogas e homossexualismo.

Por isso que o Odair José vai ser um dos mais censurados cantores da época. Suas músicas vão enfatizar, algo que era considerado subversivo. O Waldick Soriano sofreu menos, mas também sofreu. Ele não tinha uma obra tão voltada para o sexo, era mais romântico. Mas há um exemplo clássico e absurdo de proibição de músicas do Waldick que é a musica “Tortura de amor”. Na época, os militares não admitiam a existência da tortura no país, sequer que se falasse sobre isso. Então, essa referencia à tortura perturbou. Outra música dele chamada “Foge de ti” foi proibida porque os caras acharam a música ruim. Eles tinham um projeto de educar o povo, uma visão paternalista, bem típica dos regimes ditatoriais. Então, muitas vezes achavam que a música mal feita ia empobrecer o vocabulário.

Já Luiz Ayrão vai fazer canções de temática política. Ele está naquele grupo do “sambão-jóia” que teve seu ícone maior em Benito di Paula. Em 77, muito se falava dos treze anos da revolução. Ayrão fez uma música crítica chamada “Treze Anos”. Então, ficou muito óbvio e a música foi proibida. Aí ele mudou para “O divórcio”, mantendo a mesma letra e a música foi liberada.

Foi o caso do Odair José em “Pare de tomar a pílula”, de “A viagem”, que tratava de drogas. Ele abordava desses temas de forma consciente, queria confrontar mesmo. Ele ficou marcado desde o primeiro sucesso (“Vou tirar você desse lugar”) como um cantor de temas polêmicos. Então, a música atraiu mais essa repressão.

RHBN – Na tropicália, existe uma grande comunhão entre os artistas. Os cantores da música brega também produziam juntos?
Paulo – A tropicália é um grupo pequeno. No caso do brega, é uma geração que você tem desde cantores de bolero, baladistas até sambistas. É mais diverso. Era cada uma na sua carreira. Eles ocupavam o mesmo espaço, nos programas de TV e tal, mas mais pela contingência do que por um projeto em comum.

RHBN – Como era a relação dos outros cantores com os bregas?
Paulo – Os únicos artistas que tinham uma proximidade com o brega, eram exatamente os tropicalistas, pois isso era parte da própria essência do projeto de integração de misturar o cafona e o chique. Então, os artistas tropicalistas, especialmente Caetano, vão estar sempre atento à produção brega, tocando e gravando esse repertório na medida do possível. Em 73, há um famoso show de Odair José e Caetano. Você não vai ver Odair José cantando junto com um brega. Foi Caetano que quis. A Phonogram resolveu fazer uma apresentação onde cada um cantava com um companheiro. Gil cantou com Jorge Bem e Caetano escolheu Hermeto Pascoal, mas ele se recusou. Então, Caetano quis Odair José, que ficou até surpreendido. Já os cantores mais tradicionais não se relacionavam muito. Era cada macaco no seu galho.

RHBN – De onde surgiu a expressão música brega?
Paulo – Nos anos 70, a música popular mais romântica era chamada de cafona. No início dos anos 80 passa a se chamar de brega, que era uma expressão usada para designar o baixo meretrício, principalmente no interior da Bahia. Chegava um viajante e falava: “Onde é o brega aqui?”. Ele queria saber onde era a zona. Nesses locais tocava-se muito Waldick, Odair José e esses cantores mais populares. Aí no início dos anos 80 isso passa a ser adjetivo. A música do brega, passa a ser música brega. E o termo cafona vai perdendo força. Até hoje se chama de música brega. Acho até mais sonoro…

RHBN – E a música brega hoje?
Paulo – O brega está mais forte do que nunca. Assim como o samba, ele agoniza mas não morre. Ele se transforma. Estamos hoje no tecno-brega, que é dançante e mexe com o corpo. Nos anos 70 era algo mais romântico, você ouvia mais contemplativo. Essa geração sertaneja é chamada de “breganejo”. Zezé di Camargo e Luciano, Daniel ou Leandro e Leonardo estão dentro da produção identificada ao brega. O que eles vão fazer também não está associado ao moderno, nem ao tradicional. Os críticos não dizem que aquilo é musica caipira.

Saiu uma pesquisa no ano passado na Folha com os 10 artistas mais ouvidos no Brasil. E estavam lá: Calypso, Daniel, Zezé di Camargo e Amado Baptista. São cantores considerados bregas, que continuam sendo desqualificados pela crítica. Hoje eles têm uma presença maior. Há filmes, tocam na Globo, em novelas. Isso é o estilo brega, não aquela geração dos anos 70. A produção brega continua com força cada vez maior. Não dá mais para ignorar. Dá para desqualificar, pois eles não estão associados nem a tradição, nem a modernidade.

RHBN – Qual seu projeto atual?
Paulo – Fiz cerca de 200 entrevistas para esses dois livros. Foram quinze anos de pesquisa. Comecei em 90 e fui até em 2005. Usei apenas parte desse material. Então, ainda estou trabalhando com ele. Falei de Waldick Soriano a Tom Jobim. Conversei com todos pessoalmente e agora estou transcrevendo esse material. Só não consegui ainda dar um corte. Não sei se vou fazer uma síntese geral ou algo mais específico. Esse material dá pelo menos mais dois livros sobre música popular. Talvez eu vá contar os bastidores, ainda não sei. Mas com certeza vai ter mais um livro sobre música popular.

Revista de História da Biblioteca Nacional

Livro traz fotos inéditas de acervo da Família Real

23 - Setembro - 2008

Paisagens e retratos do Brasil do século XIX estão reunidos na “Coleção Princesa Isabel – Fotografia do Século XIX”, divulgada nesta quinta-feira (11) em coletiva de imprensa no Centro do Rio.

O livro traz 1,2 mil fotos, a maioria inédita, recolhidas na Europa, do acervo particular de Dona Thereza Maria de Orleans e Bragança, última neta viva da Princesa Isabel e do Conde D’Eu.

O livro oferece ao leitor um delicioso passeio pelo século XIX. Segundo a Light, responsável pelo lançamento do acervo, a obra, em suas 432 páginas, revela um acervo de importância fundamental, principalmente aos amantes da fotografia e aos estudiosos da História do Brasil.

O livro traz, ainda, imagens da aclamação da Princesa Isabel como regente, em 1887, na catedral do Rio de Janeiro. O trabalho dos pesquisadores Bia Fonseca Corrêa do Lago e Pedro Corrêa da Lago inclui uma reportagem completa das festas da Lei Áurea, bem como fotos inéditas da sessão em que a lei foi aprovada pelo Parlamento.

Festim iconográfico

Para o historiador e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), José Murilo de Carvalho, “a Princesa e o Conde prepararam um festim iconográfico póstumo para historiadores do Brasil e da fotografia, agora oferecido nessa primorosa edição”.

O acervo é composto por obras dos maiores fotógrafos que atuavam no país à época, como Marc Ferrez, Augusto Malta, Augusto Stahl, Alberto Henschel e outros menos divulgados, num total de setenta artistas.

Lançado pela editora Capivara, “Coleção Princesa Isabel – Fotografia do Século XIX” deve chegar às livrarias brasileiras ainda neste mês.

Fonte: G1