a manhã de 21 de agosto de 1911, um carpinteiro italiano saiu do Museu do Louvre com a Mona Lisa debaixo do braço. Caminhou, o passo rude, por várias ruas de Paris, enlaçado à famosa Gioconda de Leonardo, que ocultava sob o guarda-pó puído. Vincenzo Perugia concluía então aquele que é considerado um dos maiores roubos do século 20 – responsável pela lenda de que o quadro em exposição no Louvre, hoje, é falso.
Sabe-se muito pouco sobre os detalhes do crime. Mas, na versão do escritor argentino Martín Caparrós, tão logo ficou sozinho em casa com o quadro, Perugia viu-se bambo. Sem jeito diante da mulher do sorriso enigmático, até dedicou-lhe algumas canções ao bandolim. Teve insônia nos dois anos em que manteve a pintura debaixo da cama. Depois, tentou devolvê-la à Itália, de quem, ele achava, havia sido roubada por Napoleão Bonaparte.
Com detalhes como esse, malandros, Valfierno, primeiro livro de Caparrós lançado no Brasil, reconstrói o roubo de forma assumidamente ficcional. Ciente de suas próprias tramóias, o autor prefere o pitoresco ao policial; e desloca o papel de protagonista: este segue para o argentino marquês Eduardo de Valfierno – na verdade, Juan María Bonaglia – que teria sido o mentor do roubo. Personagem que é, acima de tudo, uma peça rara: na contramaré dos espertalhões clássicos, este dá o pulo do gato já quarentão. Após décadas como atendente de armarinho e contador de prostíbulo é que passa a dedicar-se à venda de quadros falsificados. Para isso, inventa toda uma vida no papel de marquês.
– Esta sempre me pareceu uma história fascinante. Não só o roubo em si, mas toda a trama que o rodeia, a história de Valfierno: como alguém inventa a si mesmo e como, depois, usa seu personagem para enganar um grupo de ricos pretensiosos – justifica Caparrós, que ganhou o Prêmio Planeta, uma das mais importantes láureas literárias espanholas, de 2004, com a obra.
Em 1917, Valfierno-Bonaglia procurou o jornalista americano Karl Decker (que, no livro, vira “Charles Becker”), para quem teria narrado a história, sob a promessa de que só a publicaria após a sua morte – o que aconteceu em 1931.
– Esse jornalista é o único que disse haver conhecido Valfierno. Mas como saber se a história contada pelo marquês, ou mesmo a narrada pelo jornalista, é verdade? – indaga o escritor.
E é de qualquer forma inútil tentar decifrar, em Valfierno, o novelo entre ficção e verdade que o compõe. Até porque esta é a brincadeira travessa de Caparrós: manter sua escritura, como os seus personagens, “sempre à beira” – expressão dele mesmo. E fazer da literatura o cerne um tanto obscuro, sádico, desse jogo: é o Bonaglia leitor-voraz que serve de matriz para o Valfierno inventado; e é o estilo peculiar de Caparrós, com a pontuação aos sobressaltos e a narrativa não-linear, de vozes misturadas, que ressaltam o livro como um próprio artifício de falsificação – a vida de Bonaglia, permanentemente reinventada, é aqui recriada mais uma vez. E por um escritor consciente de que vive, ele próprio, um exercício de cópias e roubos.
– Gosto muito da idéia de um falsário que sabe que fez algo genial, mas não pode contá-lo – explica. – Valfierno era, por isso, o contrário de um escritor, esse sujeito bastante tonto que nunca pára de contá-lo.
Mas um sujeito que vive a farsa, acima de tudo:
– Na verdade os falsificadores são os grandes escritores de ficção: os que crêem tanto em suas histórias que podem inclusive terminar na cadeia por elas.
Marquês inventado
O Valfierno criado pelo autor argentino é um personagem absolutamente sedutor: tão patife quanto inventivo. No livro há outros também encantadores, com destaque para Valérie, a demi-mondaine que mantém um caso com Valfierno e com Perugia – e, claro, com tantos outros. É bela, mas tem de manter-se de boca fechada, para que não lhe vejam os dentes estragados. Por isso, em determinado momento, tem seu sorriso comparado ao da Mona Lisa: aquele que tem motivos nada gloriosos para não se escancarar.
Mais uma prova de que Caparrós é um obcecado pelas minúcias. A maioria delas desemboca num quadro zombeteiro: das cortinas de veludo do cabaré Faux Chien ao tique de Perugia, que vez ou outra toca o testículo esquerdo para ganhar sorte.
– Deus está nos detalhes, dizia não me recordo quem – brinca, sabendo muito bem que a frase é do arquiteto Ludwig van der Rohe. – E um escritor quer, penosamente, ser Deus em sua pequena criação. Sem detalhes, sem minúcias, um texto é um catálogo menor, pura letra morta.
Caparrós tem algo de Perugia: os bigodes. Espessos e compridos, condizem com sua conhecida personalidade forte, inconfundível. São tão marcantes quanto sua voz, que o amigo (e também escritor argentino) Alan Pauls já descreveu, em um artigo, como “uma voz radiofônica: grave, como ensimesmada em sua própria notoriedade”.
Não à toa é radiofônica: ainda jovem, Caparrós estreou nas rádios com o hit Sueños de una noche de Belgrano, que estrelava ao lado de Jorge Dorio. Mas fez carreira mesmo no jornalismo impresso, onde já trabalhou nas editorias de esportes, cultura, gastronomia e polícia. Do Babel ao Cuisine & Vins, passando pelo Página/30 e El Porteño, o homem atua em todas as frentes.
Talvez os bigodes lhe sejam o segredo de Sansão: é veloz e versátil na pena, tendo mais de dez livros publicados, entre romances, ensaios e até uma obra (Boquita) sobre o time de futebol Boca Juniors, do qual é torcedor fanático. Perguntado se gosta de alguma equipe brasileira, exercita a marra argentina:
– Gosto de vários times: Santos, Palmeiras, Inter e muitos mais. Eles se empenham em nos deixar ganhar cada vez que os enfrentamos. É muito amável de sua parte, não?
Fora de moda
Além de jornalista, escritor e sócio do clube portenho, Caparrós é historiador. Escreveu, com Eduardo Anguita, um testemunho sobre a luta de grupos revolucionários dos anos 70 (La voluntad). Mas torce o nariz para quem confunda seus livros com “a epidemia dos romances historiográficos”.
– Me incomoda a moda das livrarias, que oferecem livrinhos mais ou menos errados sobre cada período ou lugar da História, desde as cavernas paleolíticas até agora – lamenta. – Cultivam a idéia, lamentável, de que alguém vai ler um livro divertido e, além disso, vai aprender algo, ou seja, que não vai perder tempo. Mas a literatura é, antes de mais nada, uma perda de tempo. A boa literatura vai contra a idéia de rentabilidade contemporânea, e é isso que eu mais gosto nela.
Contra a epidemia de livros de historiografia e a favor do desperdício agudo das horas, Caparrós criou obras que têm tido elogios ao redor do mundo. Entre elas, La historia, de 1999, cujo nome provocador adianta a que veio: o autor inventa uma civilização inteira, registrada em um manuscrito do século 16. Outro livro famoso é El interior, no qual Caparrós narra sua viagem de 30 mil quilômetros pelo interior da Argentina. No Brasil, além de Valfierno, sairá pela Companhia das Letras seu último romance, A quien corresponda.
Em todos eles, a marca em comum é o esmero rítmico, um tanto excêntrico. Caparrós é talvez um campeão mundial no uso de dois pontos – indício de que, acompanhando suas histórias, sua linguagem é também em falsete.
– Me importa muito o ritmo das frases. Se me guarda um segredo, te conto que muitas vezes escrevo contando as sílabas, como quem escreve em decassílabos ou alexandrinos.
Valfierno
Martín Caparrós.Tradução: Josely Vianna Baptista
Companhia das Letras
352 p., R$ 49