Arquivo da categoria ‘Referências’

Vivo como nunca

11 - Outubro - 2008

Talvez o mais conhecido dentre os historiadores vivos, Eric Hobsbawm concedeu uma entrevista à revista de política internacional Sin Permiso sobre a atualidade da obra de Marx. Após 160 anos desde a publicação do Manifesto do Partido Comunista, o pensador alemão volta à tona em meios à crise financeira norte-americana.

O jornalista Marcelo Musto inicia a conversa com uma referência que explicita bem essa retomada. Segundo ele, em conversa com Hobsbawm, o empresário George Soros afirmou ter encontrado muitas coisas interessantes na obra de Marx. De fato, cada vez mais, membros do mercado financeiro se interessam pelo marxismo e sua análise do desenvolvimento do sistema capitalista.

“A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx”, afirma o autor da trilogia de livros sobre o século XIX, que completa: “Ao mesmo tempo, o proletariado, dividido e diminuído, deixou de ser crível como o agente histórico de transformação social”.

Hobsbawm afirma ainda que o retorno de Marx à esquerda só será possível quando as lutas anti-globalização cessarem. Segundo ele, não se trata de lutar contra este processo, visto que já está instalado e é irreversível, exceto ocorra um “colapso geral da sociedade humana”. O historiador assegura que o próprio Marx deu as boas-vindas à globalização. “O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo”, diz.

Quando questionado sobre a validade do pensamento marxista na atualidade, Eric Hobsbawm afirma: – Sua previsão de que o capitalismo seria trocado por um sistema administrado e planejado socialmente parece razoável, ainda que tenha certamente subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em um sistema pós-capitalista.

O historiador destaca ainda a importância dos Grundrisse. São escritos políticos de Marx publicados postumamente. Servem como uma prévia do que viriam a ser desenvolvido posteriormente no Capital. Um dos trechos de maior destaque trata das formações econômicas pré-capitalistas. Apesar de sua importância, o texto é pouco conhecido mesmo entre os pesquisadores.

Segundo Hobsbawm, provavelmente não há mais que poucos editores ou tradutores tiveram pleno conhecimento destes grandes e complexos textos. No entanto, o historiador não tem dúvidas: – Marx permanece como um guia soberbo para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

Confira a entrevista completa.

Cadernos de História

11 - Outubro - 2008

Criada em 2006, a Revista Eletrônica Cadernos de História constitui-se atualmente em um importante veículo de divulgação da pesquisa em Ciências Humanas no país. O periódico conta com um conselho consultivo composto por renomados pesquisadores do Brasil e do exterior.

Ao dar prosseguimento às suas edições temáticas, a revista dos discentes da Universidade Federal de Ouro Preto lançará em breve a sua edição ano 3, n. 2, com o tema Imprensa, Espaço Público e Cultura Política. Maiores informações em www.ichs.ufop.br/cadernosdehistoria.

História emoldurada por sorrisos

11 - Outubro - 2008

a manhã de 21 de agosto de 1911, um carpinteiro italiano saiu do Museu do Louvre com a Mona Lisa debaixo do braço. Caminhou, o passo rude, por várias ruas de Paris, enlaçado à famosa Gioconda de Leonardo, que ocultava sob o guarda-pó puído. Vincenzo Perugia concluía então aquele que é considerado um dos maiores roubos do século 20 – responsável pela lenda de que o quadro em exposição no Louvre, hoje, é falso.

Sabe-se muito pouco sobre os detalhes do crime. Mas, na versão do escritor argentino Martín Caparrós, tão logo ficou sozinho em casa com o quadro, Perugia viu-se bambo. Sem jeito diante da mulher do sorriso enigmático, até dedicou-lhe algumas canções ao bandolim. Teve insônia nos dois anos em que manteve a pintura debaixo da cama. Depois, tentou devolvê-la à Itália, de quem, ele achava, havia sido roubada por Napoleão Bonaparte.

Com detalhes como esse, malandros, Valfierno, primeiro livro de Caparrós lançado no Brasil, reconstrói o roubo de forma assumidamente ficcional. Ciente de suas próprias tramóias, o autor prefere o pitoresco ao policial; e desloca o papel de protagonista: este segue para o argentino marquês Eduardo de Valfierno – na verdade, Juan María Bonaglia – que teria sido o mentor do roubo. Personagem que é, acima de tudo, uma peça rara: na contramaré dos espertalhões clássicos, este dá o pulo do gato já quarentão. Após décadas como atendente de armarinho e contador de prostíbulo é que passa a dedicar-se à venda de quadros falsificados. Para isso, inventa toda uma vida no papel de marquês.

– Esta sempre me pareceu uma história fascinante. Não só o roubo em si, mas toda a trama que o rodeia, a história de Valfierno: como alguém inventa a si mesmo e como, depois, usa seu personagem para enganar um grupo de ricos pretensiosos – justifica Caparrós, que ganhou o Prêmio Planeta, uma das mais importantes láureas literárias espanholas, de 2004, com a obra.

Em 1917, Valfierno-Bonaglia procurou o jornalista americano Karl Decker (que, no livro, vira “Charles Becker”), para quem teria narrado a história, sob a promessa de que só a publicaria após a sua morte – o que aconteceu em 1931.

– Esse jornalista é o único que disse haver conhecido Valfierno. Mas como saber se a história contada pelo marquês, ou mesmo a narrada pelo jornalista, é verdade? – indaga o escritor.

E é de qualquer forma inútil tentar decifrar, em Valfierno, o novelo entre ficção e verdade que o compõe. Até porque esta é a brincadeira travessa de Caparrós: manter sua escritura, como os seus personagens, “sempre à beira” – expressão dele mesmo. E fazer da literatura o cerne um tanto obscuro, sádico, desse jogo: é o Bonaglia leitor-voraz que serve de matriz para o Valfierno inventado; e é o estilo peculiar de Caparrós, com a pontuação aos sobressaltos e a narrativa não-linear, de vozes misturadas, que ressaltam o livro como um próprio artifício de falsificação – a vida de Bonaglia, permanentemente reinventada, é aqui recriada mais uma vez. E por um escritor consciente de que vive, ele próprio, um exercício de cópias e roubos.

– Gosto muito da idéia de um falsário que sabe que fez algo genial, mas não pode contá-lo – explica. – Valfierno era, por isso, o contrário de um escritor, esse sujeito bastante tonto que nunca pára de contá-lo.

Mas um sujeito que vive a farsa, acima de tudo:

– Na verdade os falsificadores são os grandes escritores de ficção: os que crêem tanto em suas histórias que podem inclusive terminar na cadeia por elas.

Marquês inventado

O Valfierno criado pelo autor argentino é um personagem absolutamente sedutor: tão patife quanto inventivo. No livro há outros também encantadores, com destaque para Valérie, a demi-mondaine que mantém um caso com Valfierno e com Perugia – e, claro, com tantos outros. É bela, mas tem de manter-se de boca fechada, para que não lhe vejam os dentes estragados. Por isso, em determinado momento, tem seu sorriso comparado ao da Mona Lisa: aquele que tem motivos nada gloriosos para não se escancarar.

Mais uma prova de que Caparrós é um obcecado pelas minúcias. A maioria delas desemboca num quadro zombeteiro: das cortinas de veludo do cabaré Faux Chien ao tique de Perugia, que vez ou outra toca o testículo esquerdo para ganhar sorte.

– Deus está nos detalhes, dizia não me recordo quem – brinca, sabendo muito bem que a frase é do arquiteto Ludwig van der Rohe. – E um escritor quer, penosamente, ser Deus em sua pequena criação. Sem detalhes, sem minúcias, um texto é um catálogo menor, pura letra morta.

Caparrós tem algo de Perugia: os bigodes. Espessos e compridos, condizem com sua conhecida personalidade forte, inconfundível. São tão marcantes quanto sua voz, que o amigo (e também escritor argentino) Alan Pauls já descreveu, em um artigo, como “uma voz radiofônica: grave, como ensimesmada em sua própria notoriedade”.

Não à toa é radiofônica: ainda jovem, Caparrós estreou nas rádios com o hit Sueños de una noche de Belgrano, que estrelava ao lado de Jorge Dorio. Mas fez carreira mesmo no jornalismo impresso, onde já trabalhou nas editorias de esportes, cultura, gastronomia e polícia. Do Babel ao Cuisine & Vins, passando pelo Página/30 e El Porteño, o homem atua em todas as frentes.

Talvez os bigodes lhe sejam o segredo de Sansão: é veloz e versátil na pena, tendo mais de dez livros publicados, entre romances, ensaios e até uma obra (Boquita) sobre o time de futebol Boca Juniors, do qual é torcedor fanático. Perguntado se gosta de alguma equipe brasileira, exercita a marra argentina:

– Gosto de vários times: Santos, Palmeiras, Inter e muitos mais. Eles se empenham em nos deixar ganhar cada vez que os enfrentamos. É muito amável de sua parte, não?

Fora de moda

Além de jornalista, escritor e sócio do clube portenho, Caparrós é historiador. Escreveu, com Eduardo Anguita, um testemunho sobre a luta de grupos revolucionários dos anos 70 (La voluntad). Mas torce o nariz para quem confunda seus livros com “a epidemia dos romances historiográficos”.

– Me incomoda a moda das livrarias, que oferecem livrinhos mais ou menos errados sobre cada período ou lugar da História, desde as cavernas paleolíticas até agora – lamenta. – Cultivam a idéia, lamentável, de que alguém vai ler um livro divertido e, além disso, vai aprender algo, ou seja, que não vai perder tempo. Mas a literatura é, antes de mais nada, uma perda de tempo. A boa literatura vai contra a idéia de rentabilidade contemporânea, e é isso que eu mais gosto nela.

Contra a epidemia de livros de historiografia e a favor do desperdício agudo das horas, Caparrós criou obras que têm tido elogios ao redor do mundo. Entre elas, La historia, de 1999, cujo nome provocador adianta a que veio: o autor inventa uma civilização inteira, registrada em um manuscrito do século 16. Outro livro famoso é El interior, no qual Caparrós narra sua viagem de 30 mil quilômetros pelo interior da Argentina. No Brasil, além de Valfierno, sairá pela Companhia das Letras seu último romance, A quien corresponda.

Em todos eles, a marca em comum é o esmero rítmico, um tanto excêntrico. Caparrós é talvez um campeão mundial no uso de dois pontos – indício de que, acompanhando suas histórias, sua linguagem é também em falsete.

– Me importa muito o ritmo das frases. Se me guarda um segredo, te conto que muitas vezes escrevo contando as sílabas, como quem escreve em decassílabos ou alexandrinos.

Valfierno

Martín Caparrós.Tradução: Josely Vianna Baptista

Companhia das Letras

352 p., R$ 49

A democracia e o ‘fim da História’

4 - Outubro - 2008

O dito popular diz que “contra fatos não há argumentos”, mas o mais acertado seria admitir que apenas contra fatos é que existem argumentos, pois a interpretação da realidade depende sempre de onde se lha enxerga. Assim, um dos problemas caros aos historiadores é enxergar o passado para além dos acontecimentos, mas também a mentalidade existente nas consciências. Neste sentido, o que chamamos “modernidade” corresponde ao período em que existiram projetos universais, como o socialismo ou o nazi-fascismo, por exemplo. E o que chamamos “pós-modernidade” é exatamente este período em que parece haver uma ausência de projetos para a humanidade.

Para o estadunidense Francis Fukuyama, a queda do muro de Berlim representou o “fim da História”, pois a partir de então o antagonismo que polarizava o mundo entre socialistas e capitalistas estava suprimido pelo triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias. Tudo que restou, das requisições nacionalistas ao fundamentalismo islâmico, não serve de estandarte e o “american way of life”, isto é, o estilo de vida americano parece ser a única bandeira de um mundo colonizado econômica e culturalmente pela super-potência do Tio Sam.

Mesmo diante do inesperado – os ataques ao Pentágono e às Torres Gêmeas – e das transformações mundiais ocorridas em virtude do terrorismo, o projeto dos Estados Unidos ainda é o hegemônico: vida, liberdade e a procura da felicidade com as bênçãos da democracia. Por isso, as guerras contra o Afeganistão e o Iraque nunca estiveram sob a mira de uma crítica feroz que fizesse de Bush um derrotado, mas a atual crise econômica que pode acabar com a farra do consumo talvez o coloque, historicamente, no panteão dos demônios.

É muito cedo para dar qualquer veredicto. Assim como é muito cedo, ou quem sabe tarde demais, para assinalar o “fim da História”. Tudo pode acontecer, embora seja muitíssimo provável que não estejamos aqui para ver. A democracia é o nosso presente e, sem dúvida, ela é o pior dos regimes políticos enquanto não houver um melhor. O Estado democrático, sendo teoricamente o que representa a vontade da maioria, é o único que garante a liberdade. E a luta só é possível sem o arbítrio da excepcionalidade, isto é, sem o poder soberano dos regimes ditatoriais.

O problema, então, não é tanto pelo quê ou por quem lutamos, mas se efetivamente lutamos. Lutamos? O descaso e muitas vezes a alienação parecem ser uma forma de luta, como se o silêncio sem mordaça fosse o próprio protesto. Preocupados em vender o almoço para pagar a janta ou em aproveitar a última promoção do shopping, dependendo da posição econômica que ocupamos, não nos envolvemos em qualquer manifestação que exceda às ambições de nosso individualismo. E assim compramos o sonho americano de uma felicidade fabricada para ser consumida instantaneamente: o único projeto é o da construção da casa própria, mesmo que ela se avizinhe a barracos.

Nada tenho contra as ambições e as conquistas individuais. O que me espanta é o “pensamento único” que consente a desigualdade social e a corrupção sem tomar qualquer parte. O que me espanta é a ignorância que não reflete sobre as mudanças necessárias. O que me espanta é a desesperança que se acostuma com a estagnação. E, por fim, o que me causa um misto de asco com pavor é essa vontade de tirar proveito das situações, de justificar os meios pelos fins, de pensar que se a “farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Tudo isso leva ao poder a banda podre da política com suas listas de favores devidos aos financiadores da campanha.

Se a mentalidade da pós-modernidade nos retirou qualquer herança de projeto universal, isto não significa que não haja projetos que possam ser partilhados coletivamente. E é aí que os Estados Unidos demonstram a sua autocrítica, pois lá a sociedade civil é altamente organizada. São as associações de moradores, de donas de casa, de grupos de auto-ajuda, de mulheres, de homossexuais, as organizações não-governamentais, os grêmios, as cooperativas, os sindicatos e os movimentos sociais. A formação desses grupos de interesse é o que garante o peso das reivindicações na arena pública.

No Brasil, esse processo de organização da sociedade civil começou a deslanchar nas últimas décadas, mas a “coisa pública” é ainda vista como “coisa de ninguém”. A impunidade e a corrupção são certamente as razões da apatia, assim como a mentalidade individualista deste tempo histórico voltado para o consumo e para o utilitarismo. Votar é importantíssimo, mas não é a única virtude da democracia. É preciso observar como estamos sendo representados. É preciso reivindicar quando essa representação falha. E é preciso apresentar propostas também. Se apenas contra fatos é que existem argumentos, é preciso que argumentemos diante da realidade para que o “fim da História”, se um dia o houver, não seja o triunfo do apaziguamento pela conformidade, pela resignação ou pela indiferença.

Fonte: O Globo

Mulheres da ciência

3 - Outubro - 2008

No início dos anos 40 observou-se, no Brasil, uma crescente escolarização em nível superior, em muito proporcionada por políticas educacionais implantadas a partir de 1930, que encaminharam contingentes expressivos de mulheres às instituições científicas. A conquista feminina na época acarretou a inserção profissional de diversas mulheres no mundo acadêmico e científico, e a análise desse processo pode fornecer uma nova perspectiva sobre a institucionalização e profissionalização da atividade científica no Brasil.

Para os autores do artigo, a historiografia tem dificuldades para traçar um quadro em que, a partir da década de 40, as mulheres entraram contínua e decisivamente nos laboratórios de pesquisa
Para os autores do artigo, a historiografia tem dificuldades para traçar um quadro em que, a partir da década de 40, as mulheres entraram contínua e decisivamente nos laboratórios de pesquisa

É exatamente isso que pesquisadores do Instituto de Filosofia de Ciências Humanas da Universidade de Campinas e da Casa Oswaldo Cruz  da Fiocruz demonstraram em artigo publicado no último volume da revista História, Ciências e Saúde – Manguinhos. O estudo teve como base o exame de quatro revistas científicas publicadas no período entre 1939 e 1969, nas quais se detecta uma significativa presença de artigos femininos, bem como diferenças entre o padrão de publicação entre homens e mulheres: a Anais da Academia Brasileira de Ciência, a Revista Brasileira de Biologia, a Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e a Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais.
Confira o texto completo no site da Fiocruz.

Arquivos na rede

3 - Outubro - 2008

No início de setembro, o Google anunciou o plano de expandir seu já grandioso banco de dados. O maior buscador do mundo irá digitalizar milhares de páginas de jornais, disponibilizando-as para consulta através do serviço ‘Google News Archive’. O conteúdo poderá ser visto exatamente como foi publicado, com fotos, manchetes, textos e anúncios. Os primeiros parceiros da empresa são os Estados Unidos e o Canadá.

Há dois anos, o Google já trabalha com a indexação de notícias do New York Times e do Washington Post. No entanto, a partir de agora, outros jornais também poderão ser visualizados, como o Quebec Chronicle-Telegraph, o mais antigo da América do Norte.

Confira em: http://news.google.com/archivesearch

Chaminés abandonadas

1 - Outubro - 2008

Antes lotadas, algumas fábricas indianas hoje nada mais produzem além de ecos. O enfraquecimento de pólos industriais e a desarticulação dos trabalhadores em cidades como Kanpur e Bombay foi o tema da palestra de Chitra Joshi no dia 26 de agosto. Autora do livro “Lost Worlds: Indian Labour and its Forgotten Histories”, ainda sem tradução, ela foi convidada pela Fundação Getúlio Vargas a falar sobre a história do trabalho na Índia em uma perspectiva internacional.

Chitra comentou o crescimento dos empregos informais, em detrimento do ofício industrial. Segundo ela, ainda que seja importante, a fábrica deixou de ser o local de trabalho por excelência. Símbolo do encontro do trabalhador rural com a modernidade, as indústrias também funcionavam como locais de reunião entre pessoas de origens diferentes.

“Nos chawls [conglomerados habitacionais dos operários], as identidades de castas eram negociadas. Ainda que a fábrica controlasse os corpos dos empregados, eles resistiam, apropriando os espaços de um modo próprio e transformando-os com sua própria cultura, através dos cultos, por exemplo” disse Chitra Joshi, enquanto ilustrava sua apresentação com fotos de fábricas vazias.

A professora disse ser importante reavaliar as categorias espaciais tradicionais da história do trabalho. Sua obra dialoga com correntes tradicionais e modernas do pensamento historiográfico indiano, buscando compreender os impactos da industrialização na cultura dos trabalhadores e os fluxos migratórios ocasionados por ela.

Pesquisador da UFRRJ, Alexandre Fortes comentou que a Índia possui um passado de dominação colonial e desenvolveu tardiamente suas indústrias, assim como o Brasil. Aqui, no entanto, a implementação do modelo neoliberal foi retardada pela classe trabalhadora, enquanto lá os movimentos sociais não tiveram o mesmo sucesso em suas empreitadas.

Alexandre afirmou ainda que o esvaziamento de regiões fabris é presente mesmo em nações economicamente desenvolvidas, citando como exemplo a cidade de Detroit nos EUA. O que varia é a intensidade deste processo. “O ABC já não tem mais o mesmo peso que antigamente, mas não virou um deserto. A nossa desindustrialização veio com a democracia e sofreu fortes pressões dos movimentos sociais”, comentou.

Ao contrário, na Índia as mudanças econômicas coincidiram com o enfraquecimento dos projetos baseados no nacional-desenvolvimentismo e com a ascensão de um partido fundamentalista que, segundo Alexandre, promoveu uma forte desarticulação da classe operária. Isso fez com que os estudos no campo da história do trabalho se voltassem para outros espaços, além das fábricas. Ele comentou ainda sobre a importância da preservação destes ambientes, transformando-os em espaços de reflexão, como museus ou centros culturais.

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

Arquivos Historia Viva n.2

1 - Outubro - 2008

Nas bancas Arquivos Historia Viva n.2 – Os melhores textos sobre a Segunda Guerra Mundial –

Desde a ascensão dos nazistas, passando pelo pacto entre Stalin e Hitler, a invasão da França, a espionagem soviética, a luta suicida dos kamikazes, a resistência alemã, o holocausto, a queda de Berlim, a luta dos pracinhas na Europa até Nazistas e fascistas no Brasil.

Centro histórico de Porto Nacional é tombado

30 - Setembro - 2008

A cidade de Porto Nacional, no interior do estado de Tocantins, já recebeu a notificação do tombamento de seu centro histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em fins de agosto. Agora falta apenas sua homologação pelo Ministério da Cultura. A área reúne aproximadamente 250 edificações.

A origem do município – localizado no centro do estado – remonta ao Ciclo do Ouro, no século XVIII. Chamada então de Porto Real, a cidade abrigava instituições da metrópole portuguesa responsáveis pela cobrança de impostos sobre a extração do ouro. Durante a época do império, a cidade passou a se chamar Porto Imperial e, na república, Porto Nacional.

Os estudos que fundamentam o pedido de tombamento foram feitos por meio de uma parceria entre o município, a Fundação Cultural do Estado, e a Superintendência Regional do Iphan. O tombamento impulsionou o processo de restauro da região. A Prefeitura Municipal declarou que pretende, nos próximos anos, investir pesado em obras para aumentar o potencial turístico da região.

SP inaugura museu interativo dedicado à história do futebol

30 - Setembro - 2008

A cidade de São Paulo ganha nesta segunda-feira o Museu do Futebol, montado sob as arquibancadas da entrada principal do estádio do Pacaembu, na zona oeste da cidade. O museu é interativo e promete levar os visitantes a uma viagem inesquecível que conta a história do esporte mais popular do país. A abertura para o público acontece nesta terça, ás 10h, com ingressos a R$ 6,00. O Museu do Futebol funcionará apenas nos dias em que não houver jogos no estádio, para evitar qualquer tipo de confusão.

O local tem 6.900 m² e abrigará tanto a história do futebol brasileiro como a evolução do país em outros aspectos.

- O museu não se restringirá aos acontecimentos dentro das quatro linhas. Mostrará também o que aconteceu na cultura e na política do Brasil e do mundo – diz o secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, Hugo Barreto.

A instituição foi a principal parceira do projeto, que teve a iniciativa da prefeitura paulistana e do governo do estado.

Dentro do museu, que deve virar atração turística na cidade, haverá ainda o Auditório Armando Nogueira, com capacidade para 180 lugares, a sala de exposições temporárias Osmar Santos, o bar O Torcedor, uma loja com artigos esportivos e lembranças do local.

O museu será dividido em três setores principais. O torcedor começa a viagem pela área da emoção, passeia por momentos históricos e finaliza a trajetória no eixo da diversão. Em todos eles, há a fusão entre a modernidade e a nostalgia. Logo na entrada, os visitantes vão se deparar com imensos painéis com fotos ampliadas de objetos de torcedores que remetem ao futebol, como bonecos, flâmulas, chaveiros, botões de equipes e ingressos.

Outra parte do museu que chama a atenção é a sala dos Anjos Barrocos, com imagens de craques projetadas em telas, como se eles estivessem voando. No segundo andar, o torcedor revê a história do futebol desde o final do século XIX até a Copa da Alemanha, em 2006. Na última seção, todos poderão viver um dia de craque participando de jogos interativos.

Depois de conhecer a história do futebol brasileiro, o torcedor poderá mostrar suas habilidades e até medir a potência do seu chute. Nesse último setor estarão disponíveis diversos tipos de jogos e brincadeiras.

Em um deles, que se chama Chute a Gol, o visitante fará uma cobrança de pênalti. Sensores medirão a velocidade do chute. Além disso, o torcedor será fotografado e poderá ver sua imagem no site do museu. Os que não quiserem se arriscar com a bola nos pés, mas acham que entendem tudo de tática, poderão testar diversas formações nas mesas de pebolim instaladas no primeiro andar.

No mesmo local haverá uma pequena arquibancada onde os torcedores poderão ver um filme em terceira dimensão de seis minutos com Ronaldinho Gaúcho. A primeira imagem do jogador é apenas um esqueleto virtual que, aos poucos, vai se transformando no atacante.

Fonte: O Globo